segunda-feira, 16 de julho de 2012

poema no. 276

um dia de aniversário

(por mais bolos
e etanóis

por mais horas
e  notas
(e oitavas)

que possa ter)

é muito pouco para se descolar da vida

a vida
a dura e em frangalhos
a difícil e traiçoeira
que teima em queimar
as horas e os bolos

por mais amores e palavras doces
por mais doces encobertos
por mais debates açucarados
que possa ter

a vida queima
e teima em estar em mim
mais que eu nela
e em queimar mas a mim
que à vela

quinta-feira, 12 de julho de 2012

poema no. 275

minha querida amiga
o que dizer neste momento
em que a vida se embrutece
e irrompe em dor e
dúvida

se houvesse o que ser dito
talvez dissesse que a vida
não deve ser um processo
mas uma explosão de urgência
que tudo é urgente e
nada pode esperar
ou que

a vida é mais que sabê-la
e pensa-la
a vida é muda-la
(a vida é mudar a vida)

e é certo que você sabe
e é certo que você a vive
(pois você a muda)

assim
o que dizer que você não saiba
o que dizer que possa mudar a vida
(poemas não mudam a vida
é a nossa luta
dolorida e dolorida
que o faz)

sábado, 7 de julho de 2012

poema no. 274

andando
do alto do viaduto
me vejo no jardim

andando

no jardim
andando
entre flores árvores e bosta de cachorro
a vida é mais lenta e fria

não sou senão uma sombra
andando
no jardim
do que um dia se animará

a andar sobre o concreto

quarta-feira, 4 de julho de 2012

sábado, 30 de junho de 2012

poema no. 272

os tempos são difíceis

menos porque as massas
ainda possuam ilusões burguesas

(menos
inclusive
porque a despeito do que me diga lenin
há o sentimento de que elas talvez sempre as tenham)

os tempos são difíceis
e não são porque às vezes me sinto só
com minhas companheiras
gritando para o vazio

são difíceis como poucas vezes o foram
e tampouco penso que seja
pela imensa apatia
que se abate sobre nós

os tempos são difíceis
e duros
e ásperos

porque sobre nós é despejado
todo o ódio
que brota
da estupidez estanque
do conservadorismo verdadeiro


segunda-feira, 25 de junho de 2012

poema no.271

acontece
companheiras
que sou machista

lutar contra o que sou
contra o que sempre fui
(e talvez
a despeito de nossa luta e de meu desejo
contra o que eu sempre seja)
é a luta a que não posso me negar lutar

não posso porque alguns fronts só eu os alcanço

e então
quando diante de todos e todas ou tod@s
surge aquela piada aquele escárnio aquele olhar de quem pode sobre quem não pode
é que estou perdendo

(mesmo que diante do garçom
me recuse a aceitar a conta)

(não é de retórica a nossa luta
é de verdade)

sábado, 23 de junho de 2012

poema no. 270

não somos os mais numerosos
nem os mais organizados
nem os mais ofensivos
nem os mais radicais

mas os companheiros
e as companheiras
do m.e. da unifesp bs

certamente são daqueles
que mais se entregam

mesmo sem saber o que virá
e querendo aquilo
que a canção diz

a terra mãe livre comum

sábado, 16 de junho de 2012

poema no. 269 ou poema inaudível

22
estudantes
companheiros em luta
por uma universidade 

pública
gratuita
de qualidade
e socialmente referenciada

foram agredidos e presos

qualquer coisa que se possa dizer
parecerá apenas mais um jargão

(não cabe no poema
o som dos tiros
e dos gritos da companheira)

quinta-feira, 14 de junho de 2012

poema no. 268

minha amiga nayara moreira gatti
fala

e a liberdade acontece
meu corpo se aquece na

fala
de minha amiga nayara moreira gatti

é que quando ela fala
eu digo o que eu ia dizer
e não preciso mais

(parece que minha amiga
a companheira nayara moreira gatti
sabe o que penso)

claro que pode ser apenas coincidência
ou a consequência de uma formação política com muitos termos em comum
mas na minha cabeça
só fica o calor que me produz a fala da companheira -
a minha amiga nayara moreira gatti

sexta-feira, 8 de junho de 2012

poema no. 267


"Yo no canto por cantar
ni por tener buena voz
canto porque la guitarra
tiene sentido y razon (...)"

(Victor Jara)



sentir a razão
a dor da razão
ouvir a razão
e sentir mais pensar

não há paradoxo
não há dialética
não há síntese

mas é que a razão
torna-se sentir
e sentir torna-se
lutar

e quando
se sente a luta
e quando
a luta vira sentido

sonhar
pensar
lutar
torna-se intimidade

e
identidade

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