domingo, 21 de outubro de 2012

poema no. 310

"O melhor lugar do mundo é aqui
E agora"
(Gilberto Gil)

o que tenho a dizer
não o direi
que isso não é hora
              nem lugar

seguirei sentindo e sabendo
mas mesmo o que sinto
       mesmo o que sei
                   o que sonho
                          e suo
                             (frio)

agora
aqui
diante deste pretenso pedaço de liberdade
ficarão aprisionados
que isto não é meio
             nem eu McLuhan

isto
tudo
o que não digo mais mas sinto e sei e sonho e suo frio
                                                    mas não agora e aqui       
ficarão reservados ao momento mais íntimo
de apreensão mais ordinária
de inquietação mais leviana e fugaz
de motivação mais displicente

àqui
àgora
estão reservadas as palavras mais despalavradas
                            os signos mais dessignificados
aqueles que não dirão nem sentirão
(mas que talvez
suarão(frio))
         

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

poema no. 309

ninguém mais
me beija a boca

minha boca anda triste
meio trêmula
meio sozinha

e ninguém a beija mais

porque não se beija
uma boca medrosa
e triste

só se beija
uma boca
com alegria

só se beija
uma boca sem medo

mas uma boca
sem medo
é uma boca fria

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

poema no. 308



"Dizem que é um colosso
Por dentro e por fora
É gente como a gente
A gente sente
Pois se aperta ela chora"
(Luiz Tatit)



não posso tudo
não posso nada
       posso mesmo muito pouco

(buscar água num
       poço

buscar bosta num
       fosso) mas se

não posso tudo
não posso nada
       posso mesmo muito pouco

por que
       ouço a mesma fala
                o mesmo falo
que me toca e me diz que
       posso
       posso
       posso (e então me
       torço)

                o que 
      posso
é saber o que
      posso
é saber que

não posso tudo
não posso nada
       posso mesmo muito pouco

(chorar a água de um
       poço

verter-me em bosta num
      fosso)

sábado, 13 de outubro de 2012

poema no. 307

se choro
é porque ainda sei chorar

ainda tenho em meu peito dores que existem apesar de mim
de você

que existem ao longo de mim e de você
e me impedem de ser o que quero ser
ou mesmo o que esperam que eu seja
ou mesmo o que eu espere que

se choro
é porque minha luta infantil
contra este mundo adulto e insano
não apresenta resultados concretos
e sim
talvez nunca os veja
talvez nunca aconteça
talvez só servirá para arrastar mais e mais
homens e mulheres e crianças (meninas e meninos) para uma luta infantil
contra este mundo adulto e insano

não é o seu desapreço por meu corpo
não é o seu desapreço por meus modos
não é o seu desapreço por meus medos
não é você

mas a vida
as condições de existência concretas
que me empurram
e resisto
e me empurram mais
e resisto
e resisto

se choro
é que a vida dói
com seus torniquetes
com seus dedos ferindo ainda mais as feridas
cutucando devagar as cascas ainda jovens
dolorindo e rindo

mas
a vida passa
não como passa um automóvel numa noite de sábado
não como passa uma dor

a vida passa
mas não passa como passa um pássaro na praia
alegórico
nem como passa um dia ou um tempo qualquer
em qualquer dia

passa
mas passa imóvel
quieta
inerte

como se não passasse
mas
passou

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

poema no. 306

a revolução proletária
internacional socialista

que nos fará livres de opressões
que nos fará livres de qualquer dominação de classes
que nos fará avançar sobre qualquer liberdade que em nenhum dia sequer sonhamos
que nos fará ver tanta beleza que nem sabemos
que nos fará ter tanta fartura
que nos fará gozar de tanto ócio
que nos fará viver e decidir viver

      nós a faremos

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

poema no. 305 ou fofinha

quando fofinha
minha cachorrinha vira-latas
me avisou que morreria
corri para o veterinário
e tentei impedi-la

e chorei na sua frente
e deitei ao seu lado
e me pus abaixo dela
só para persuadi-la

e voltei ao veterinário
mas mesmo ele já estava convencido e queria ajuda-la em sua decisão egoísta e insensata

dias depois
ela disse que sentia muito que eu sentisse tanto
mas ela já sentia mais
demais

então
sem muitas delongas
deu um aceno com a mão
e morreu
(como disse que faria)

terça-feira, 18 de setembro de 2012

poema no. 304

um poema mudo
inaudível

surdo-mudo

inefável

não porque de si
irrompa o desacordo verbal
não porque em si
a linguagem desmorone
não porque em si
as palavras amoleçam e escorram
não porque de si
escoe o sentimento pleno de rebeldia

um poema mudo
por ser mudo só
por não saber
por não poder
por não caber

poema no. 303

se um sonho fosse um sonho
e um poema um poema

um sonho seria um sonho
e um poema um poema

às vezes
sonhos podem ser poemas
poemas podem ser sonhos

se a eles é dado o direito de sê-los

então
(às vezes só)
poemas são sonhos
e
sonhos são poemas

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

poema no. 302

tenho dado para andar
só pra pensar

só pra falar
sozinho

(tem coisa que só se diz sozinho)

e essa alegria de estar só
e essa tristeza

que quando surge
é sempre mais bonita
contada do que vista

sábado, 1 de setembro de 2012

poema no. 301 ou laicato

o homem
que por nenhum motivo importante era preto
me xingava
e direcionava a mim gestos obscenos

é que não dei a ele o real que ele pediu
(eu disse que não tinha)
embora o tivesse

de fato
estou em dificuldades financeiras
não tenho podido ir ao cinema com frequência
nem comprar refrigerante todos os dias
mas eu podia dispor de um real
dois talvez
e dar ao homem
(que estava sujo
sem nenhum motivo aparente)

de fato
não será um real
(ou dois)
que resolverá a sociedade de classes
que resolverá a questão social

mas para o homem
que sem motivo qualquer usava as vestes rotas
que seguramente conhece pouco de marxismo
parecia importante que eu lhe desse
um ou dois de meus reais

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