em gaza
bombardeios israelenses matam palestinos
em são paulo
pessoas são mortas e casas são invadidas
em lisboa e madrid e em toda a europa
greves gerais são reprimidas com violência para a manutenção da ordem
em são paulo
estudantes ocupam uma reitoria
em natal
há uma manifestação contra o aumento da passagem (reprimida)
apesar disso
cá estou às duas e treze
escrevendo um mau poema
e conjeturando
em silêncio
que a vida
se supõe
em silêncio
marcadores que iam ser
pesquisar esboços
domingo, 18 de novembro de 2012
sexta-feira, 16 de novembro de 2012
poema no. 321
tornaste-te um nome
apenas
como se fosse pouco
um nome
tornaste-te um nome proibido
um nome de coisa proibida
um nome que não se diz
uma coisa que não se quer
como se fosse pouco
um nome proibido
tornaste-te uma ideia
(não uma ideia
apenas
uma ideia inaudita)
apenas
como se fosse pouco
um nome
tornaste-te um nome proibido
um nome de coisa proibida
um nome que não se diz
uma coisa que não se quer
como se fosse pouco
um nome proibido
tornaste-te uma ideia
(não uma ideia
apenas
uma ideia inaudita)
quarta-feira, 14 de novembro de 2012
poema no. 320 ou ausente
não farei o poema de minha tristeza
minha tristeza não cabe no poema
tampouco farei o poema
onírico
de ventos que uivam
de folhas cortantes de cana verde
de cabras imaculadas
meu poema não é de sonhos nem de dor
não farei o poema de meu imenso amor
sobre o meu amor intenso e imenso
não porque ele não caiba no poema (e não cabe)
mas porque ele já não cabe em mim
meu poema será sobre nada
sobre o vazio
sobre a ausência
que se encerra
em mim
minha tristeza não cabe no poema
tampouco farei o poema
onírico
de ventos que uivam
de folhas cortantes de cana verde
de cabras imaculadas
meu poema não é de sonhos nem de dor
não farei o poema de meu imenso amor
sobre o meu amor intenso e imenso
não porque ele não caiba no poema (e não cabe)
mas porque ele já não cabe em mim
meu poema será sobre nada
sobre o vazio
sobre a ausência
que se encerra
em mim
terça-feira, 6 de novembro de 2012
poema no. 319
não sei o que sinto
mas sinto que não sei (mais)
mudar na cabeça
a chave
de
sentir
para
saber
mas sinto que não sei (mais)
mudar na cabeça
a chave
de
sentir
para
saber
segunda-feira, 5 de novembro de 2012
Livro das Ignorãças
Manoel de Barros é um poeta.
Ele faz poemas sobre nada. E versos com ignorãças.
Abaixo um vídeo com trechos de poemas seus, do Livro das Ignorãças.
Ele faz poemas sobre nada. E versos com ignorãças.
Abaixo um vídeo com trechos de poemas seus, do Livro das Ignorãças.
domingo, 4 de novembro de 2012
poema no. 318 ou poema egoísta
eu sei
que a vida ainda é difícil
com as opressões de classe e de gênero e de raça e de
sei que o capital avança sobre nossos direitos
e que pessoas morrem
na calada da noite
sei que a noite
é mais noite na periferia
e que balas cruzam os bairros
e coturnos abrem portas e espaço para
as balas que cruzam os bairros
mas agora
só consigo pensar
em mim e em minha dor
no escuro que se faz em mim
no abismo que se coloca diante de mim
na dó e na pena e na piedade que sinto de mim
e nada tem a ver com minha classe
ou com as opressões
ou com os ataques do capital
tem a ver comigo
e só
que a vida ainda é difícil
com as opressões de classe e de gênero e de raça e de
sei que o capital avança sobre nossos direitos
e que pessoas morrem
na calada da noite
sei que a noite
é mais noite na periferia
e que balas cruzam os bairros
e coturnos abrem portas e espaço para
as balas que cruzam os bairros
mas agora
só consigo pensar
em mim e em minha dor
no escuro que se faz em mim
no abismo que se coloca diante de mim
na dó e na pena e na piedade que sinto de mim
e nada tem a ver com minha classe
ou com as opressões
ou com os ataques do capital
tem a ver comigo
e só
sábado, 3 de novembro de 2012
poema no. 317 ou poema da vila margarida
a vila margarida é um bairro proletário
próximo ao mar pequeno
muitos dos proletários e proletárias
(também há proletárias na vila margarida)
desconhecem
o significado da palavra 'proletário'
muitos
só tem pra si o vocabulário proletário
que não possui via de regra o vocábulo 'proletário'
mas os proletários e proletárias da vila margarida
sabem o que é ser proletário e proletária
porque a condição proletária acontece
na pele
no rosto
nos olhos
do proletariado
acontece no chão em que ele pisa
que se encharca de água e esgoto quando chove
(sim
em bairros proletários chove esgoto
e encharca de esgoto o pé proletário)
acontece na frágil inviolabilidade do lar proletário
acontece na frágil inviolabilidade da vida proletária
o proletariado sabe de sua condição proletária
quando seus filhos (mais até que suas filhas)
morrem
assim
só por morrer
só porque são proletários
e moram na vila margarida (um bairro proletário)
e porque morrem
e porque são proletários
e porque viviam num bairro proletário (a vila margarida)
onde chove esgoto e as paredes se parecem com cavaletes
ninguém liga
ninguém nota
ninguém se importa
(ninguém que não viva
na vila margarida)
próximo ao mar pequeno
muitos dos proletários e proletárias
(também há proletárias na vila margarida)
desconhecem
o significado da palavra 'proletário'
muitos
só tem pra si o vocabulário proletário
que não possui via de regra o vocábulo 'proletário'
mas os proletários e proletárias da vila margarida
sabem o que é ser proletário e proletária
porque a condição proletária acontece
na pele
no rosto
nos olhos
do proletariado
acontece no chão em que ele pisa
que se encharca de água e esgoto quando chove
(sim
em bairros proletários chove esgoto
e encharca de esgoto o pé proletário)
acontece na frágil inviolabilidade do lar proletário
acontece na frágil inviolabilidade da vida proletária
o proletariado sabe de sua condição proletária
quando seus filhos (mais até que suas filhas)
morrem
assim
só por morrer
só porque são proletários
e moram na vila margarida (um bairro proletário)
e porque morrem
e porque são proletários
e porque viviam num bairro proletário (a vila margarida)
onde chove esgoto e as paredes se parecem com cavaletes
ninguém liga
ninguém nota
ninguém se importa
(ninguém que não viva
na vila margarida)
sexta-feira, 2 de novembro de 2012
poema no. 316
em casa
onde a vida é cercada
por lanças e por um cão
e onde
a não ser por umas janelas
a visão de quem está fora
é vedada
a verdade custa a entrar
a luz dos monitores não permite enxergar com precisão
o que ocorre além dos monitores
e eis que
quando se descobre
que pessoas estão sendo mortas
aos montes
a cada dia
às dezenas
elas já morreram
e já não se pode fazer nada
e quando se descobre que pessoas
tem o lar violado
aos montes
violentamente
por brutamontes
e seus rostos espancados
já foram os lares violados
os rostos espancados
e nada foi feito
nem será
a verdade
numa casa hermética como as deste bairro
quando chega
já é um caso
história
(mesmo que esteja acontecendo agora)
onde a vida é cercada
por lanças e por um cão
e onde
a não ser por umas janelas
a visão de quem está fora
é vedada
a verdade custa a entrar
a luz dos monitores não permite enxergar com precisão
o que ocorre além dos monitores
e eis que
quando se descobre
que pessoas estão sendo mortas
aos montes
a cada dia
às dezenas
elas já morreram
e já não se pode fazer nada
e quando se descobre que pessoas
tem o lar violado
aos montes
violentamente
por brutamontes
e seus rostos espancados
já foram os lares violados
os rostos espancados
e nada foi feito
nem será
a verdade
numa casa hermética como as deste bairro
quando chega
já é um caso
história
(mesmo que esteja acontecendo agora)
quinta-feira, 1 de novembro de 2012
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