domingo, 19 de maio de 2013

poema no. 357

A Manoel de Barros

ensinou-me pasquale cipro neto
só pra cima se pode subir
por isso
se diz-se
subi pra cima
há uma redundância
um vício de linguagem

mais tarde desensinou-me joaquim pilé
que ele tinha subido pra dentro de si
e visto com os olhos (mas pelo lado de dentro)
como é alto e escuro dentro de si
e depois de tanto subir
acabou no meio do escuro perdido
e não sabia voltar

então gritou alto três vezes uma reza de índio
que tinha aprendido com sua mãe
e já tinha descido pra fora de novo

joaquim pilé me desensinou
que pra fazer poesia
é preciso ser viciado em linguagem

quinta-feira, 9 de maio de 2013

poema no. 356 ou vigília onírica

sei que te vi
e te toquei
e nos tocamos

e se sei
se me sei e te sei
é porque sinto na pele a tua pele
e nas mãos o teu cabelo
e no ouvido esquerdo uma lembrança de tua voz
me dizendo qualquer coisa que não faz sentido agora
mas que fazia porque era a tua voz

sei que senti tua falta
quando te viraste e foste ao quarto ao lado
e eu te chamei e tu respondeste
que não poderia ser mesmo assim
pois a vida nos impede com suas concretudes
e desassombros

eu sei que fiquei triste
sei porque ainda está cá a tristeza
de saber que tua mão e tua voz eram vapor
ou não
ou eu sou vapor
onírico
e ficaste tu
concreta e sólida e fria pra trás

acontece que não sei o que saber
se tua pele tocou minha pele (mas tocou)
se tua voz entrou em mim (mas entrou)
se ficaste para trás (mas ficou)

acontece que não sei se o que sei
soube de fato ou só penso que soube
mas eu soube
quando subi em ti
e seguimos assim por duas quadras
e me disseste
                    para mauricio
e eu parei

acontece que agora
que me sei vivo
que me sei desperto
sei que tua mão e teu cabelo
não são vapor
e não me tocam
embora eu lembre de cada segundo
em que deslizaste por mim

(talvez eu esteja um tanto confuso)



quarta-feira, 8 de maio de 2013

poema no. 355

que difícil que está sendo isso
isso de não se lembrar
isso de resistir a querer
isso de precisar sonhar

é preciso que sonhe
é preciso que olhe
e veja mais que sonho
é preciso que se espere mais que sonhos

porque haverá resistência
e eu esquecerei

e eu não saberei mais dizer
do que fiz
do que fez
do que aconteceu
se é que aconteceu

quinta-feira, 25 de abril de 2013

poema no. 354

na cama
ao teu lado
olho para o teto
e ele não é nada mais que o teto
descascado e úmido
de nosso quarto

como a cama mesmo
não é nada senão uma cama
que já foi de meu avô
de onde ele foi tirado e pra onde nunca mais voltou

os sapatos jogados
que são fora sapatos
a que se prestam os sapatos
meios sujos
meio furados
para além de sua existência como sapatos
como sujeira
como furos

os sapatos
que já carregaram significados complexos e diversos
neste momento não podem carregar nada
nem eu nem meus pés
nem qualquer coisa minha
que eu mesmo não carrego mais

e eu
que sou pra além de um corpo
ao teu lado
de um corpo que pesa na cama
já muito tarde
e teme
e treme
e (sim)
   freme

mas não mais como quem olhasse e visse outra coisa
outro mundo
mas como que olha e vê o teto

quarta-feira, 17 de abril de 2013

poema no. 353


Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.
(Carlos Drummond de Andrade)

não há muito o que ser dito
tudo já foi dito
mil vezes
pra mil pessoas
em mil cenários
de mil maneiras
em mil línguas

ainda assim

poderia lançar mão de dois ou três
artifícios formais
e fazer um pequeno poema
(ou algo assim)
sobre o que foi a vida
(ou algo assim)
nos últimos meses
nos últimos dias

mas tenho a impressão
de que não há forma
formalidade
que dê conta
da dor
da cor torpe que tomou minha pele
meus pelos

poderia escrever três ou quatro versos vagos
mas
e a vaga que arrebentou
dilacerou
esfrangalhou
tudo

expor
abrir o meu peito
rasgar meu tórax e deixando passar
vazantes debulhadas e raivosas
(que de raiva e debulho estou cheio)
muito menos adianta
ou verte-se em arte

e que pode a arte

e por isso
é preciso que se lance mão da concretude
da palavra
saudade
da palavra
sozinho
da palavra
pronto-socorro
da palavra
suicídio
da palavra
medo
da palavra
mal-cheiro

lá fora as coisas seguem
sendo coisas e só
mais nada

a vida seguirá com
seus objetivos
apesar de qualquer delicadeza
que haja em meus olhos
a vida seguirá
com baixos salários
com sub-empregos
com crianças encarceradas

porque a vida não suporta amenidades
a vida
não suporta lirismos
como meus ombros
não suportam o mundo

quinta-feira, 11 de abril de 2013

poema no. 352 ou poema mudo

tem tanta coisa que eu sei
tanta coisa que eu sei
porque li
porque vi
porque fui sabendo de tanto dessaber
                             de tanto dissabor

mas aí acontece que eu me pelo de medo
por nada
por coisa besta
por exemplo se olho na janela
e lá fora tudo não mudou
como eu mudei
tenho medo do mundo se ele não muda
tenho medo de mim se me emudeço

e aí me sinto um tolo
eu que sei tanto
eu que li tanto
eu que tanto descobri de tanto duvidar

não sei como ter coragem
e mudar o mundo
como eu soube me mudar

domingo, 24 de março de 2013

poema no. 351

não é porque estou apaixonado
(sempre
o tempo todo
por tanta gente
ao mesmo tempo)
que sou poeta

mas pela quantidade
de espaços vazios em meu peito
pela quantidade
de espaços vazios noite adentro
noite afora
pelo imenso vazio que é a noite

pelos tantos vazios
em que me enfio
noturnamente

e só sobra a vontade imensa de trepar
desesperadamente
e me embriagar
me preencher de embriaguez
desesperadamente
e me desesperar
embriagadamente

sou poeta
mas não porque conheça
os exercícios formais
porque tenha ido a aulas de ritmo
e arquitetura
e linguística

sou porque sou
porque verti-me em
vesti-me
de delírios insones
e os enfiei em mim
em cada espaço vazio
oco
inócuo

e porque
me preencho
porque estou
pleno de nada
penso que sou
o que não sou
e
vou
como quem fosse
mas não vai

e aí
dou a usar olheiras
dou a masturbar-me
noite adentro
a ferir-me noite adentro
a gargarejar ideias
e fonemas
e mumúrios sem porquê
sonhando
e pensando em coisas que não existem
em coisas que não passam de palavras
significante significado objeto representamen interpretante
em coisas que não podem me ferir
não podem
mas ferem

segunda-feira, 18 de março de 2013

poema no. 350

um rivotril
ou dois
bastariam para fazer de mim
o homem mais feliz do mundo

aquele que não disse o que disse
aquele que não fez o que fez
aquele que disse o que não disse
aquele que fez o que não fez

claro que a depressão do sistema nervoso central não é coisa com que se brinca

claro que sempre se pode dispor de outros métodos
chás
maconha
chás alucinógenos
exercícios para respiração
masturbação

mas o bem da ausência
o ser o que se não foi
só com um rivotril
ou dois

sexta-feira, 15 de março de 2013

poema no. 349 ou poema sensato

sempre

a sisudez
a sensatez
a aspereza
a frieza
a certeza

é certo que havia beleza
- uma áspera beleza -
e havia sorrisos
- uns ásperos sorrisos -
e havia ternura
- uma fria ternura -

mas havia a relutância
em crer que
de nós
a sensata
de nós
a certa do que havia de ser certo
a dona dos olhos abertos
(que há hora de tê-los abertos)

chorava
levava o sentimento ao limite
rasgava o coração

pois rasga

segunda-feira, 4 de março de 2013

poema no. 348 ou versinhos conservadores de amor

amor não te amo
como já te amei
como naquele tempo em que
tu eras rainha
e eu um rei

não fiques preocupada
não há o que temer
é que amor não é amor
se nele estiver contido
o poder

não fiques magoada
nem fiques com saudade
que amor só é amor
se nele estiver colada
a liberdade

não se sintas culpada
não é questão de culpa
é coisa de amor
que amor é coisa como nós
coisa que muda

então não fiques presa
ao nosso amor primeiro
que eu não mais te possuo
eu te amo como ama
um companheiro

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