há um momento
em que a única alegria
é a embriaguez
que a cevada proporciona
neste momento
em que tolices serão ditas
em que todas as vergonhas
serão postas de lado
em que toda a alegria do mundo
estará num abraço
trôpego
a mente voará
dormente
em meio a uma
profusão de palavras
doces
confusas
uma imensa confusão
profusa
de devaneios
doces
marcadores que iam ser
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segunda-feira, 4 de novembro de 2013
sexta-feira, 1 de novembro de 2013
pequenos amores ou caminho de coração desajustado
quando amei Maíra
o coração verteu-se em ira
quando amei Aline
botei o coração na vitrine
quando amei Emília
escondi o coração na mobília
quando amei Natália
pisei no coração com a sandália
quando amei Karina
joguei o coração na latrina
quando amei Satiko
o coração ficou rico
quando amei Renata
toquei o coração na serenata
quando amei Marília
levei o coração para Brasília
quando amei Thalita
requentei o coração na marmita
quando amei Suelen
levei o coração ao éden
quando amei Nayara
o coração virou caiçara
o coração verteu-se em ira
quando amei Aline
botei o coração na vitrine
quando amei Emília
escondi o coração na mobília
quando amei Natália
pisei no coração com a sandália
quando amei Karina
joguei o coração na latrina
quando amei Satiko
o coração ficou rico
quando amei Renata
toquei o coração na serenata
quando amei Marília
levei o coração para Brasília
quando amei Thalita
requentei o coração na marmita
quando amei Suelen
levei o coração ao éden
quando amei Nayara
o coração virou caiçara
quinta-feira, 24 de outubro de 2013
Chega dessa lenga lenga de "falar bem"
O assunto "preconceito linguístico" já foi tratado neste blog (veja aqui). Mas sempre me deparo com algum grande absurdo nas redes sociais e nas ruas. Então, vamos falar um pouco mais sobre isso.
As línguas mudam ao longo do tempo. É o caso clássico do "vossa mercê" que virou "você".
Mas o que faz uma língua mudar? São transgressões e rebeldia. Em todos os tempos as classes dominantes usaram a língua como uma das formas de dominação. Nas sociedades antigas, somente os homens do clero, escribas, senadores etc. podiam aprender a ler. Hoje, somente a burguesia e as camadas médias tem acesso a educação de qualidade.
Isso garante que fiquem sob domínio das das classes dominantes as normas de prestígio da língua - que geralmente são aquelas que mais se aproximam da norma culta, a forma gramatical.
Essas classes farão de tudo para que a língua não mude. Ou permaneça o máximo de tempo possível como está, para que, assim, possa ser por mais tempo um instrumento de dominação - tanto psicológico quanto formal, por meio do documentos jurídicos, por exemplo. Lançarão manuais de "como escrever bem", publicarão reportagens sobre a importância de se "falar bem", farão programas de humor em que a piada é o uso de uma forma desprestigiada da língua (do tipo "seu Creysson").
Mas acontece que a língua ocorre nas ruas, não nas salas dos gramáticos. A língua na gramática só serve à elite. A das ruas, às massas. E é na língua que as massas mostram sua força, pois a elite não consegue, nem nunca conseguiu, deter o avanço da língua das massas sobre as formas prestigiadas por si. Mesmo quando no Brasil instituiu-se o português como língua oficial em detrimento de línguas indígenas, o resultado foi um "português brasileiro", cheio de "nhén nhén nhén" e "lenga lengas", de arapucas e cataporas, maritacas, pererecas etc.
Não se propõe aqui que a classe trabalhadora não precise ter acesso à norma culta da língua, pelo contrário. Mas que se deva ter respeito pelas variações regionais e de classe da língua, sem hierarquizar as variantes linguísticas em formas "melhores ou piores".
Enfim, pense bem antes de reproduzir piadas a respeito da forma linguística adotada por este ou aquele grupo, pois você pode estar reproduzindo aquilo que há de mais conservador nas elites deste país.
Dica boa (e clássica) de livro a este respeito é "Preconceito Linguístico - o que é, como de faz", de Marcos Bagno.
Mas o que faz uma língua mudar? São transgressões e rebeldia. Em todos os tempos as classes dominantes usaram a língua como uma das formas de dominação. Nas sociedades antigas, somente os homens do clero, escribas, senadores etc. podiam aprender a ler. Hoje, somente a burguesia e as camadas médias tem acesso a educação de qualidade.
Isso garante que fiquem sob domínio das das classes dominantes as normas de prestígio da língua - que geralmente são aquelas que mais se aproximam da norma culta, a forma gramatical.
Essas classes farão de tudo para que a língua não mude. Ou permaneça o máximo de tempo possível como está, para que, assim, possa ser por mais tempo um instrumento de dominação - tanto psicológico quanto formal, por meio do documentos jurídicos, por exemplo. Lançarão manuais de "como escrever bem", publicarão reportagens sobre a importância de se "falar bem", farão programas de humor em que a piada é o uso de uma forma desprestigiada da língua (do tipo "seu Creysson").
Mas acontece que a língua ocorre nas ruas, não nas salas dos gramáticos. A língua na gramática só serve à elite. A das ruas, às massas. E é na língua que as massas mostram sua força, pois a elite não consegue, nem nunca conseguiu, deter o avanço da língua das massas sobre as formas prestigiadas por si. Mesmo quando no Brasil instituiu-se o português como língua oficial em detrimento de línguas indígenas, o resultado foi um "português brasileiro", cheio de "nhén nhén nhén" e "lenga lengas", de arapucas e cataporas, maritacas, pererecas etc.
Não se propõe aqui que a classe trabalhadora não precise ter acesso à norma culta da língua, pelo contrário. Mas que se deva ter respeito pelas variações regionais e de classe da língua, sem hierarquizar as variantes linguísticas em formas "melhores ou piores".
Enfim, pense bem antes de reproduzir piadas a respeito da forma linguística adotada por este ou aquele grupo, pois você pode estar reproduzindo aquilo que há de mais conservador nas elites deste país.
Dica boa (e clássica) de livro a este respeito é "Preconceito Linguístico - o que é, como de faz", de Marcos Bagno.
quarta-feira, 23 de outubro de 2013
amor militante
tenho vandalizado
janelas e
corações
cacos de átrios
e vidro
me ferem
me cortam
corto o ar
com
palavras de ordem
e poemas
grito dor
e metáforas
porque
vai
na linha de frente
o meu amor em luto
o meu amor que luta
o meu amor
militante
janelas e
corações
cacos de átrios
e vidro
me ferem
me cortam
corto o ar
com
palavras de ordem
e poemas
grito dor
e metáforas
porque
vai
na linha de frente
o meu amor em luto
o meu amor que luta
o meu amor
militante
sexta-feira, 27 de setembro de 2013
parto
se eu pudesse
te paria às avessas
te poria pra dentro
junto com visgo
e berro
te amarrava pelo umbigo
e te alimentava
com aminoácidos
tenros e ternos
mas a vida
ocorre fora de mim
a vida se dá
nas dores e nas marcas da luta
se dá nas ruas
nos telhados
sob fumaça e estrelas
se dá em filas de cartórios
de farmácias
em corredores de hospitais
se dá nos chuveiros da orla
e nas palafitas
onde se vive sobre a merda
a vida se dá
fora de mim
fora de nós
por isso
não te quero
em mim
nem te quero
natimorta
te quero
limpa
só por hoje
que hoje
a vida segue
te paria às avessas
te poria pra dentro
junto com visgo
e berro
te amarrava pelo umbigo
e te alimentava
com aminoácidos
tenros e ternos
mas a vida
ocorre fora de mim
a vida se dá
nas dores e nas marcas da luta
se dá nas ruas
nos telhados
sob fumaça e estrelas
se dá em filas de cartórios
de farmácias
em corredores de hospitais
se dá nos chuveiros da orla
e nas palafitas
onde se vive sobre a merda
a vida se dá
fora de mim
fora de nós
por isso
não te quero
em mim
nem te quero
natimorta
te quero
limpa
só por hoje
que hoje
a vida segue
domingo, 22 de setembro de 2013
poema à minha primeira namorada
A Maíra Viscaya
quando eu não tinha onze anos
me apaixonei dolorosamente
como não poderia deixar de ser
quando não se tem onze anos
que sejam
por maíra
comprei chocolates
comprei suvenires
comprei flores
comprei e comprei
e o capital não me ajudava
a conquistar minha primeira namorada
lancei mão de todos os artifícios
de que lançam mão os homens apaixonados
cortejei
galanteei
dancei
disse palavras doces
maíra não sabia ainda
mas não era de ser cortejada
nem lhe interessava o patriarcado
e assim
maíra
nunca foi minha namorada
senão na minha cabeça
hoje
vejo pouco quase nada
maíra
e maíra
vê pouco quase nada
mauricio
e no fim das contas
descobrimos em comum
não o amor
não a paixão
não os filhos
nem um cão
mas nossa classe
e ela
antes de mim
partiu em luta
e eu
depois dela
parti em luta
maíra e mauricio
que nunca foram namorada e namorado
tornaram-se
companheira
companheiro
quando eu não tinha onze anos
me apaixonei dolorosamente
como não poderia deixar de ser
quando não se tem onze anos
que sejam
por maíra
comprei chocolates
comprei suvenires
comprei flores
comprei e comprei
e o capital não me ajudava
a conquistar minha primeira namorada
lancei mão de todos os artifícios
de que lançam mão os homens apaixonados
cortejei
galanteei
dancei
disse palavras doces
maíra não sabia ainda
mas não era de ser cortejada
nem lhe interessava o patriarcado
e assim
maíra
nunca foi minha namorada
senão na minha cabeça
hoje
vejo pouco quase nada
maíra
e maíra
vê pouco quase nada
mauricio
e no fim das contas
descobrimos em comum
não o amor
não a paixão
não os filhos
nem um cão
mas nossa classe
e ela
antes de mim
partiu em luta
e eu
depois dela
parti em luta
maíra e mauricio
que nunca foram namorada e namorado
tornaram-se
companheira
companheiro
quarta-feira, 11 de setembro de 2013
carta aberta para albanett
albanett pensa que sou poeta
e assim
sente falta de que eu pense
poemas
e os escreva
acontece albanett
que não possuo a poesia
mais que possuo
angústias e dores
mais que as trabalho e as forjo no calor das ideias
quando escrevo
escrevo angústias
e as sinto
mais que penso
quando escrevo
escrevo dores
e as sinto
mais que penso
mas quando escrevo
trabalho o papel dolorido
e o sinto
mais que escrevo
nos últimos dias
nas últimas semanas
dores e angústias
as tive todas
mas poesia
ainda que dura
não muda a vida
como a luta muda
e assim
sente falta de que eu pense
poemas
e os escreva
acontece albanett
que não possuo a poesia
mais que possuo
angústias e dores
mais que as trabalho e as forjo no calor das ideias
quando escrevo
escrevo angústias
e as sinto
mais que penso
quando escrevo
escrevo dores
e as sinto
mais que penso
mas quando escrevo
trabalho o papel dolorido
e o sinto
mais que escrevo
nos últimos dias
nas últimas semanas
dores e angústias
as tive todas
mas poesia
ainda que dura
não muda a vida
como a luta muda
sábado, 31 de agosto de 2013
poema em dor
dias difíceis
para quem luta
dias em que sabemos
haverá rompimentos
de barragens
de artérias
de ligamentos em fuga
na conselheiro nébias
alguém chora porque foi assediada
na silva jardim
alguém chora a morte de um filho
na silva jardim (numa outra altura)
alguém chora ouvindo um companheiro
na conselheiro nébias (na mesma altura)
alguém chora porque foi abandonada por uma companheira
(sob a forma de chuva
tenho me derramado sobre
camaradas
me diluído em afetos e dores
e me escoado
aquoso
e
lacrimoso)
para quem luta
dias em que sabemos
haverá rompimentos
de barragens
de artérias
de ligamentos em fuga
na conselheiro nébias
alguém chora porque foi assediada
na silva jardim
alguém chora a morte de um filho
na silva jardim (numa outra altura)
alguém chora ouvindo um companheiro
na conselheiro nébias (na mesma altura)
alguém chora porque foi abandonada por uma companheira
(sob a forma de chuva
tenho me derramado sobre
camaradas
me diluído em afetos e dores
e me escoado
aquoso
e
lacrimoso)
sexta-feira, 30 de agosto de 2013
"poema no assassinato de um trabalhador" é lido em Audiência.
Poema no assassinato de um trabalhador from Quem matou Ricardo on Vimeo.
Poema lido na Audiência Pública, dia 28/08/2013, na Unifesp BS.
sábado, 3 de agosto de 2013
poema no assassinato de um trabalhador
a Ricardo Ferreira Gama
1.
pouco nos falamos
enquanto limpavas
o chão em que eu
pisava
enquanto puxavas com o rodo
a água da chuva sob a chuva
enquanto punhas em ordem
as cadeiras
as carteiras
os carpetes
para eu passar
mas foste tu quem passou
2.
pouco nos falamos
bom dia boa tarde
oi até mais
obrigado disponha
etc etc
no dia em que tivemos assunto
ele era tu
e logo
o assunto morreu
3.
talvez faças pouca falta
as cadeiras
as carteiras
os carpetes
seguirão arrumados
e além do mais
teu trabalho não gerava
mais valia
talvez em muitos
tua morte não produzirá saudade
(há quem não note a mão
que produz o produto
até que ele falhe ou falte
e teu trabalho
persistirá a ti)
4.
infelizmente não creio em
vida após a morte
mas crê
haverá luta na tua morte
para que mude o estado das coisas
para que chegue o dia
em que o estado não mate
ao contrário
morra
e aí
tu não serás morto
(nunca mais)
1.
pouco nos falamos
enquanto limpavas
o chão em que eu
pisava
enquanto puxavas com o rodo
a água da chuva sob a chuva
enquanto punhas em ordem
as cadeiras
as carteiras
os carpetes
para eu passar
mas foste tu quem passou
2.
pouco nos falamos
bom dia boa tarde
oi até mais
obrigado disponha
etc etc
no dia em que tivemos assunto
ele era tu
e logo
o assunto morreu
3.
talvez faças pouca falta
as cadeiras
as carteiras
os carpetes
seguirão arrumados
e além do mais
teu trabalho não gerava
mais valia
talvez em muitos
tua morte não produzirá saudade
(há quem não note a mão
que produz o produto
até que ele falhe ou falte
e teu trabalho
persistirá a ti)
4.
infelizmente não creio em
vida após a morte
mas crê
haverá luta na tua morte
para que mude o estado das coisas
para que chegue o dia
em que o estado não mate
ao contrário
morra
e aí
tu não serás morto
(nunca mais)
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