segunda-feira, 11 de novembro de 2013

desmedido

não sei
medir a alegria
temperá-la
com zelo
não grita-la
(sussurra-la
se muito)

não sei
medir o amor
guarda-lo
cá dentro
sob gosma
banha
e assunto

não sei
medir a tristeza
repousa-la
à sombra
não chora-la
não derrama-la
na roupa

não sei
de fato
medir nada
(sou desmedido)
não meço
não tempero
não cresço

sábado, 9 de novembro de 2013

noturno

a noite morta passa por mim
todo dia
toda hora

e por ela eu passo vivo
que é em pranto que se sabe vivo
que é pisando no coração
já em hematomas
fistulado
que se arrebenta
e tem se arrebentado
que a condição viva se faz lembrar

à noite
com o frescor que vem dos lados do mar pequeno
onde há pouco houve um incêndio
(e quem soube)
e quando as ideias queimam
a si
a mim
me sei vivo
que é em carbono
que a vida se organiza

e se rasgo meu peito
e reviro meu órgãos
e cavuco a cachola em busca de loucuras
é que eviscerado posso ver
e sentir
que o corpo pulsa sua matéria
que é sonho e frio
e medo

de estar só
de tanto que pergunto
de tanto que reclamo
de tanto que a noite acontece e a sei
e preciso dizer
que sei

e preciso saber que a sei
pois sei que a lei
é deixar só
os mortos

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

impaciência

por Isabel Keppler (no Blog "Outramento...")

inspirado nos trânsitos literais de são paulo
para os trânsitos metafóricos universais.


se é o amor que transita

ou se somos nós que transitamos
não sei - nem sei se quero saber.

existe esse vai e vem
e achei bonito o que eu li,
que nunca vem em vão.

se é ele - o tal amor - que vai
ou se somos nós que vamos
(ou será todos nós que em uma hora nos trombamos?)

não sei - nem sei se quero saber.
sei é que existe um baita trânsito
pra chegar até você.

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

alegria

eu sei
parece até clichê
mas dá tanto prazer
conversar contigo

e te dizer que a vida é dor
e se ela dói em ti
é por isso que ela dói em mim
e por isso que luto
aqui onde ela dói
(em ti
em mim
em nós)

onde ela finda quando é noite
onde ela funde-se com a luta na periferia
onde ela nos fode todo o tempo
onde perdemos hoje
e perdemos ontem
mas onde um dia venceremos

me alegra ouvir teu pessimismo
não porque partilhe dele
mas porque ele é teu
como é teu o aperto no peito
de estar longe daquilo que mais te aflige
me alegra por saber que te afliges
com aquilo que é justo de se afligir

e de tanta alegria
que me dá saber de ti
e falar a ti
meu peito se esfarela de tristeza
por dentro da noite insone
e me angustio de todas as angústias
e me aflijo de todas as aflições
e choro todos os prantos

porque em ti me alegro
porque em ti me sei em luta

(contra a vida em dor
como ela se apresenta
contra dor em mim
como eu me apresento)

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Para a garota poeta que sentou-se ao meu lado e se foi

     Hoje, ao meu lado no ônibus que seguia pela orla da Ilha de São Vicente, sentou-se uma garota. Chegou depois de mim e foi embora antes que eu fosse. Tinha no máximo 15 anos (talvez 20, se fosse plena de juventude). Mas o que mais importava não era para onde ia, ou que idade tinha, mas que lá pelas tantas ela sacou da bolsa um caderno de poemas.
     Minha colega de viagem era poeta! E tinha romanticamente um caderno de poemas onde os anotava (para que não os esquecesse). Quis pedir para ler um deles. Queria muito ler um de seus poemas. Mas tive vergonha. Então olhei de rabo de olho, e li apenas o título de um deles - "Pote de Ouro". E notei ainda que o poema, escrito com letras desenhadas e redondas, não tinha rasuras, não tinha rabiscos, estava ali, por inteiro anotado, de uma vez, do início ao fim. Queria muito lê-lo. Mas não tive coragem de abordar a poeta que relia seu poema e pensava nele.
     Que poema seria? A poesia de minha juventude? A poesia ingênua e tola e jovem? A poesia sem forma, subjetiva e só? A poesia menos poesia e mais aventura?
     Acontece que em dado momento ela guarda o poema, e lança mão do Grande Mentecapto. A julgar por sua leitura, não sei que poesia ela faz agora, mas julgo que aos 32 anos, ela será a poeta que nunca fui, nem nunca serei. Eu aos 15 lia Paulo Coelho (e a Veja, aos sábados). Com Fernando Sabino, ela está em melhores mãos.
     E então ela se foi. Sem que lhe dissesse que fui feliz ao seu lado. Ao lado do que eu já fora. Sem dizer que algum dia, a vida se abrirá num abismo, e letras redondas e potes de ouro e Fernando Sabino já não bastarão. Sem dizer que um dia, a vida se tornará turva, e as desigualdades e as opressões se mostrarão, e então, ela precisará rabiscar os poemas, até haver mais rasuras que palavra pronta. E terá que abrir Wally Salomão e Leminski e Piva que tem hora que é preciso de algo forte, sem açúcar.
     E então, quando poemas rasgarem seus olhos em dor, ela se lembrará daquilo que escreveu com 15 anos, terá vergonha mas sentirá saudade.

terça-feira, 5 de novembro de 2013

escrito convulso sobre o que pode ter sido a tarde

escolher viver em dor
à margem do prazer
como se uma tarde
fosse apenas o passar do sol sobre a minha cabeça
e nada mais

como se a tarde não fosse
os cães latindo apoiados nos portões
e as pessoas se assustando
nas calçadas

como se a tarde não fosse
crianças malcriadas cuspindo em transeuntes
de cima dos prédios

como se a tarde não fosse
amantes fazendo amor
em quartos de hotel
nas cozinhas
e nos becos

escolher viver à margem da tarde
e dos prazeres
à tarde

viver
intensamente
só o luto
de si


segunda-feira, 4 de novembro de 2013

poema trôpego

há um momento
em que a única alegria
é a embriaguez
que a cevada proporciona

neste momento
em que tolices serão ditas
em que todas as vergonhas
serão postas de lado
em que toda a alegria do mundo
estará num abraço
trôpego

a mente voará
dormente
em meio a uma
profusão de palavras
doces
confusas

uma imensa confusão
profusa
de devaneios
doces

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

pequenos amores ou caminho de coração desajustado

quando amei Maíra
o coração verteu-se em ira

quando amei Aline
botei o coração na vitrine

quando amei Emília
escondi o coração na mobília

quando amei Natália
pisei no coração com a sandália

quando amei Karina
joguei o coração na latrina

quando amei Satiko
o coração ficou rico

quando amei Renata
toquei o coração na serenata

quando amei Marília
levei o coração para Brasília

quando amei Thalita
requentei o coração na marmita

quando amei Suelen
levei o coração ao éden

quando amei Nayara
o coração virou caiçara

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Chega dessa lenga lenga de "falar bem"

     O assunto "preconceito linguístico" já foi tratado neste blog (veja aqui). Mas sempre me deparo com algum grande absurdo nas redes sociais e nas ruas. Então, vamos falar um pouco mais sobre isso.
     As línguas mudam ao longo do tempo. É o caso clássico do "vossa mercê" que virou "você".
     Mas o que faz uma língua mudar? São transgressões e rebeldia. Em todos os tempos as classes dominantes usaram a língua como uma das formas de dominação. Nas sociedades antigas, somente os homens do clero, escribas, senadores etc. podiam aprender a ler. Hoje, somente a burguesia e as camadas médias tem acesso a educação de qualidade.
     Isso garante que fiquem sob domínio das das classes dominantes as normas de prestígio da língua - que geralmente são aquelas que mais se aproximam da norma culta, a forma gramatical.
     Essas classes farão de tudo para que a língua não mude. Ou permaneça o máximo de tempo possível como está, para que, assim, possa ser por mais tempo um instrumento de dominação - tanto psicológico quanto formal, por meio do documentos jurídicos, por exemplo. Lançarão manuais de "como escrever bem", publicarão reportagens sobre a importância de se "falar bem", farão programas de humor em que a piada é o uso de uma forma desprestigiada da língua (do tipo "seu Creysson").
     Mas acontece que a língua ocorre nas ruas, não nas salas dos gramáticos. A língua na gramática só serve à elite. A das ruas, às massas. E é na língua que as massas mostram sua força, pois a elite não consegue, nem nunca conseguiu, deter o avanço da língua das massas sobre as formas prestigiadas por si. Mesmo quando no Brasil instituiu-se o português como língua oficial em detrimento de línguas indígenas, o resultado foi um "português brasileiro", cheio de "nhén nhén nhén" e "lenga lengas", de arapucas e cataporas, maritacas, pererecas etc.
     Não se propõe aqui que a classe trabalhadora não precise ter acesso à norma culta da língua, pelo contrário. Mas que se deva ter respeito pelas variações regionais e de classe da língua, sem hierarquizar as variantes linguísticas em formas "melhores ou piores".
     Enfim, pense bem antes de reproduzir piadas a respeito da forma linguística adotada por este ou aquele grupo, pois você pode estar reproduzindo aquilo que há de mais conservador nas elites deste país.
     Dica boa (e clássica) de livro a este respeito é "Preconceito Linguístico - o que é, como de faz", de Marcos Bagno.

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

amor militante

tenho vandalizado
janelas e
corações

cacos de átrios
e vidro
me ferem
me cortam

corto o ar
com
palavras de ordem
e poemas

grito dor
e metáforas
porque
vai

na linha de frente
o meu amor em luto
o meu amor que luta
o meu amor

militante

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