terça-feira, 3 de junho de 2014

poema só

era assim
eu amava os cinco
e os cinco me amavam

mas

um tinha problemas de saúde
outra tinha problemas de vida
outro tinha problemas comigo
outra tinha problemas consigo
outro tinha problemas sem mim

e


fiquei sozinho

domingo, 18 de maio de 2014

amor de resistência

de tanto amar
e de tanto querer amar
mais e mais
mais sofro
de tão pouco amor
que sobra do amor

e tanto que sofro
e tanto que temo
imergir em mais dor
resisto ao amor

porém me ocorre
que estar livre do amor
é como render-se
como temer-se

(é preciso amar
como se houvesse amanhã
como se amanhã
um mundo novo fosse nascer
se eu amasse um amor que luta
se eu amasse um amor que avança)

e de tanto me ocorrer o amanhã
de tanto me surgir o adiante
resisto a resistir ao amor
e amo um amor que persiste

um amor de resistência

terça-feira, 13 de maio de 2014

sem posse

nossa relação
não é fechada
que um mundo
é tão pouco
para me bastar

nossa relação
não é aberta
fechado que sou
em mim e no que
me basto

nossa relação
não é livre
que neste mundo
quem é livre
pra ser e para amar

nossa relação
é uma relação
que luta
contra si
contra nós

que nós
ainda não nos bastamos
neste mundo
com tantos amos

quarta-feira, 30 de abril de 2014

tua luta

A Júlia Clara

companheira
se falo de ti
e minha boca
fala dele
é que meus olhos
ainda só veem
o que está aparente

essa tua luta
contra tudo
o patriarcalismo
o olhar dicotômico sobre nossos corpos
sobre nossos olhares
essa tua luta
é também contra o meu olhar acostumado
o meu olhar viciado
o meu olhar
que de tanto querer mudar o mundo
esqueceu de mudar a si mesmo

de mudar a mim

por isso
sigamos
companheira
em luta

nossos corpos irão mudar
nossos olhares irão mudar
o mundo irá mudar

tu serás tu
e eu já não serei mais eu
serei outro

o outro que te reconhece em mim

quarta-feira, 23 de abril de 2014

desamor

Se o poeta falar num gato, numa flor,
num vento que anda por descampados e desvios (...)
Se não falar em nada
e disser simplesmente tralalá… Que importa?
Todos os poemas são de amor!
Mário Quintana

meu dia é de dor
na luta que luto
no luto que guardo
pelos companheiros
pelas companheiras
que se foram

e se luto
se sigo em luta
se ponho em riste
meus punhos cerrados
e avanço cantando
canções de luta
de companheiras e companheiros
que já se foram
é que eu mesmo
já me fui

e se fico por aí
suspenso
içado vagando sem rumo
sem prumo
amando
sabe-se lá o que
por quê
pra quê

lembro que amor
não se ama em sonho
se ama em luta

terça-feira, 15 de abril de 2014

chuva boa

a chuva que deixa
a praia deserta
mesmo neste lado da cidade
onde a especulação imobiliária
encheu de torres o horizonte

onde uma avenida
homenageia um ditador
ao longo de duas dezenas
de quilômetros
de praia

onde há imagens pagãs
e fontes de água turva
e um ou outro mendigo
tumultua a caminhada matinal
de cães de raça

esta chuva que cai
e rega as rosas de meu vizinho
e cujo som se assemelha
a um riacho
de água esperta

se lança distante daqui
em bairros que repousam
embaixo de águas calmas

(não somos de ninguém)

terça-feira, 8 de abril de 2014

segurança

a polícia
que te protege
que te deixa
são e salvo
se por acaso
tu passas na quebrada

é a que quebra minha cara
preta (só porque ela é preta)

é a que mata meninos
é a que viola meninas
onde o seu candy crush
não chega

é a que invade o meu bairro
e nos explica o que é o
terror

a polícia que te protege
te protege
de mim

sábado, 29 de março de 2014

sem título

de que vale para mim
o teu amor o de rita o de gilberto
se adiante meu peito aberto
se tornará um beco
com saída pro fim

domingo, 23 de março de 2014

sobre a liberdade

O mundo não terá fronteiras
Nem estados, nem militares para proteger estados
Nem estados para proteger militares prepotências
(Mauro Iasi)

quando
nossos corpos são profanados
e arrastados e ocultados
das famílias e de deus

e nossa história é profanada
e toda a sorte de blasfêmias
nos registra e nos nomeia
nos marca a pele

quando
nossas genitálias são violadas
por armas fálicas e olhares fálicos

não é necessário temer
a volta de ditadores
que do cerne
de nossa classe
jamais se foram

é preciso ir à luta
ombro a ombro
com justeza
com a certeza
de que nossa pátria
é a nossa classe

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

poema insular

numa tangente
da ilha de são vicente
onde o mundo esfria
e minha memória ascende
algo se acende
incandescente
como um coração
só que quente

não de amor
ainda que ame

não de dor
ainda que doa

não de raiva
ainda que ralhe

e ainda que acente
reascende
reacende

crente de que a vida
não se sente

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