sábado, 10 de dezembro de 2016

poema invertido

é diante do espelho
que te sei
ante o teu oposto

ante o avesso
de tudo o que fui
o que supus ser

é que a vida
a mentida, a ferida, a consentida
vida (como já fora alertado)
deu de ir me estragando
deu de ir me matando
até que não sobrou muito de mim
senão eu mesmo coisa solta no mundo
(objeto
matéria que dói
porção de muco que vaza
naco de vida amalgamada no universo de outras vidas desentranhadas de afetos e ressentimentos)

mas
diante do espelho
a vida é um pressentimento
um não saber de si
um porvir fora de mim e do que eu possa manejar

ante o espelho
o mundo é uma desrazão
é um devaneio
de poemas músicas canções
um saber o mundo apesar dele
(dor opressão e fome)
um não sei o quê

e a despeito dele
do cansado e combalido mundo
encontro uma razão
em ver sentido no belo

(sou assassinado ao contrário)

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

poema que não se enamora

imagina
se me enamoro

se olho pra dois olhos
e tudo se apaga
ou se tudo em mim ascende
e nada me basta

era tanta poesia
que eu escrevia
era tanto egberto
que eu ouvia
era tanta coisa linda
que eu via

o tempo todo

mas o tempo já não é
de enamorar-se

a hora é morta
e ando seco
provisório
consumindo o coração

terça-feira, 21 de junho de 2016

poema na morte de yoshio konishi

(a meu sogro)

1.
o dia mal amanhecera
e era de frio e sereno
apenas
a manhã

tua filha falava da vida
que sim
haveria de existir para além de ti
e
entre mim e tua filha
tua respiração teimava em respirar
à revelia
do corpo que aos poucos
deixava de funcionar

2.
era certo que tu não estavas ali
talvez estivesses em outro tempo
em alguma memória de algum momento
em alguma mentira verdadeira de algum amigo
- e eram tantas silenciosas amizades -

mas ali
sabíamos
teu coração teimava em bater
teu pulmão teimava em inflar
mas tua vida ocorria no passado
que não era ali
entre tubos e assepsia
lugar de ocorrer a vida

3.
tua vida ocorreu entre sujeira
entre graxa de empilhadeira e cheiro de peixe
entre outras vidas tão duras e a tua própria
que por vezes pôde esperar

e se a minha cruzou com a tua
e se cordialmente seguimos lado a lado
e se tivemos amores em comum
isso é uma rabeira da tua vida
que ela foi tantas e de tantos
e se demorei a entender
que ser pra tantos era também exercer a vida
tua morte o mostrou
vertido em multidão

4.
teu pulmão se conformou
(como nós?)
e exerceu sob meu olhar seu último aceno

não era mais preciso:
a vida haveria de existir
serena
(como foi tua morte)
para além de você
em outras vidas

não é de despedida
a tua morte
é de reencontro

(21/06/2015)

domingo, 22 de maio de 2016

já dizia lênin

a vida sorri
a passos largos

me encanta
me nina

mesmo que eu saiba ser necessário
derrubar um presidente

há um cantarolar
em meu ouvido
um olho atento
à minha mão
às minhas cores

que me prende
em suspiros
num sono
inconsequente
delinquente
quase quente

(sim eu sei
a luta de classes
todas as opressões
este mundo injusto pra mudar

mas de repente
penso que viver seja
uma aventura dialética

com uma mão
mudamos o mundo
velozmente urgentemente

com a outra
o aceitamos
em cada instante dolente
em cada delícia quente)

sábado, 7 de maio de 2016

poema nu

meu corpo nu
tarde da minha vida

 o sol na pele
o sal na boca
o suor na cama
(existência retorcida
e falha
e talhada de dores)

 meu corpo luta
tarda mas não 

 falha
(talha
na vida ardida
uma espiral de sucedimentos
- a história)

quinta-feira, 21 de abril de 2016

sono velado

queria dormir
sem tempo

sonhar sonhos
infinitos

mas não um
sono solitário

um sono
sendo visto

domingo, 24 de maio de 2015

que foda

chega um dia
em que

as borboletas
as nuvens
as escadas
os coelhinhos fofinhos
os leões de pelúcia
as canetas destampadas
as portas descascadas
as poesias
os poetas
as janelas
as favelas
as avenidas
as ave marias
os pôres do sol
os seus nasceres
as sombras
o escuro

e tudo o mais
lembram-me você


fodeu

poema para helena

porque nasceu pequena
e linda como o sol
ganhou o nome helena
fagulha do arrebol

e como é tão vasta
qual os mares do sul
helena só não basta
é helena paraguassu

Coragem

nesta manhã
uma terça-feira gelada
ácida e chuvosa

em que a cidade é uma cidade parada
em que pessoas esquecem-se de pessoas
e praticam amor com a King Co.

meu coração
sabe-se lá por quê
aquece-se
em paixão e coragem

fora daqui
um companheiro sumiu em Mérida
um garoto foi assassinado no Rio de Janeiro
em Brasília direitos trabalhistas serão mandados às favas
em São Paulo um trabalhador haitiano suporta clientes insatisfeitos
em Lima um jovem beninês teme o futuro

mas aqui dentro
sabe-se lá por quê
a despeito do mundo que ocorre
a despeito dos olhos vermelhos sob a chuva
e da fumaça que intoxica homens e mulheres no Morro da Alemoa

meu coração agora
corajosamente
amaria para sempre

sábado, 7 de março de 2015

nota (para ser feliz)

um sorriso
só pra mim

mão no rosto
(não
      no torso)

e um sorriso
e outro

de perto
muito perto

um sorriso
halitoso
de tão perto

um sorriso
dentro

um sorriso
em
     mim

que sorri
por horas

que sorri
sem tempo

que sorri
e sorri

um sorriso
cremoso

que vai
dessorrindo

e larga em mim
(dentro de mim)

um beijo
alegre

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