quinta-feira, 27 de setembro de 2012

poema no. 305 ou fofinha

quando fofinha
minha cachorrinha vira-latas
me avisou que morreria
corri para o veterinário
e tentei impedi-la

e chorei na sua frente
e deitei ao seu lado
e me pus abaixo dela
só para persuadi-la

e voltei ao veterinário
mas mesmo ele já estava convencido e queria ajuda-la em sua decisão egoísta e insensata

dias depois
ela disse que sentia muito que eu sentisse tanto
mas ela já sentia mais
demais

então
sem muitas delongas
deu um aceno com a mão
e morreu
(como disse que faria)

terça-feira, 18 de setembro de 2012

poema no. 304

um poema mudo
inaudível

surdo-mudo

inefável

não porque de si
irrompa o desacordo verbal
não porque em si
a linguagem desmorone
não porque em si
as palavras amoleçam e escorram
não porque de si
escoe o sentimento pleno de rebeldia

um poema mudo
por ser mudo só
por não saber
por não poder
por não caber

poema no. 303

se um sonho fosse um sonho
e um poema um poema

um sonho seria um sonho
e um poema um poema

às vezes
sonhos podem ser poemas
poemas podem ser sonhos

se a eles é dado o direito de sê-los

então
(às vezes só)
poemas são sonhos
e
sonhos são poemas

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

poema no. 302

tenho dado para andar
só pra pensar

só pra falar
sozinho

(tem coisa que só se diz sozinho)

e essa alegria de estar só
e essa tristeza

que quando surge
é sempre mais bonita
contada do que vista

sábado, 1 de setembro de 2012

poema no. 301 ou laicato

o homem
que por nenhum motivo importante era preto
me xingava
e direcionava a mim gestos obscenos

é que não dei a ele o real que ele pediu
(eu disse que não tinha)
embora o tivesse

de fato
estou em dificuldades financeiras
não tenho podido ir ao cinema com frequência
nem comprar refrigerante todos os dias
mas eu podia dispor de um real
dois talvez
e dar ao homem
(que estava sujo
sem nenhum motivo aparente)

de fato
não será um real
(ou dois)
que resolverá a sociedade de classes
que resolverá a questão social

mas para o homem
que sem motivo qualquer usava as vestes rotas
que seguramente conhece pouco de marxismo
parecia importante que eu lhe desse
um ou dois de meus reais

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

poema no. 300


As peras, no prato,
apodrecem.
O relógio, sobre elas,
mede
a sua morte?
(Ferreira Gullar)

a vida segue
nós seguimos
juntos

e assim vida e nós
parados um com o outro

mas em dado momento
a vida avançou
(ou nós)

nos distanciamos

e quem podia prever
e quem podia notar
se parados
se distraídos com tanta coisa
com o mundo todo em sofrimento
com o capital alienando o mundo todo em sofrimento
com o cotidiano afogar-se em contas e tentar viver apesar delas
com o esperar do ônibus do trem do trólebus do metrô e de outro ônibus
(no ponto de táxi
pois é mais seguro)

a vida seguiu mais rápido (ou nós)
e eu te amo desesperadamente
e a vida segue mais rápido (ou nós)

não sei o que te dizer
não sei o que me dizer
não sei se há algo a ser dito
                                            ou feito ou esperado
não quero ser saudosista
não quero mais dor nem me ater à vida
       quero que tudo acabe

bem

poema no. 299


um homem com uma dor 
é muito mais elegante 
caminha assim de lado 
como se chegasse atrasado 
andasse mais adiante  
(Paulo Leminski)

eta vida

que dor
que dor é tanta
que dói e dói e dói e dói

e eu sei não vai não vai não vai não
passar

(vai
racionalmente vai
mas essa sensação de descompasso
abala qualquer razão)

e dói e dói e dói e dói e

atenuantes há
uma conversa
uma bebida
um sono longo

e dói e dói e dói e dói e
e não passa e não passa e não passa e não passa

o que resta é
ater-se à vida
ordinária
com seus cheques e protestos e carimbos
e reemplacamentos
e dentistas de convênios

e dói e dói e dói

eta vida

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

poema no. 298

parece que
nada funciona

há algo que sabemos
não funciona

não funciona a vida
como queríamos
como queremos
como prevíamos

há mais dor e fome do que pensávamos
(mais frio)
mais opressão sobre a nossa classe
mais dificuldade em nos organizar
mais certeza de que

não funciona a vida

nem a nossa
nem a minha
nem a minha e sua

as dores pequeno burguesas
ainda nos ferem
em algum lugar
algum recôndito

talvez funcione a vida
(a minha e sua
não a nossa)
nós e nosso modo de ser pequeno burguês em libertação é que ainda não funcionamos

em breve
há de ser feito um reparo

e a vida seguirá
funcionando
ou
não

desfuncionando

ou antes
a destruiremos
(a minha e sua
a nossa
não a minha
e a sua)
e faremos algo de bom

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

poema no. 297

o que ocorre

se você é tão bonita
e tem a inteligência que não tenho

que entre nós brota o desacordo

se você sabe de mim
tanto que me assusto
e nem posso fingir com dignidade
se dentro de você
tenho perigosas
paradas cardiorrespiratórias
 e dentro de mim
você produz
toda a espécie de delírios
se você me provoca
e me faz pensar
e estranhar as coisas

por que esse desacordo
que por vezes nos leva a crer
que tudo irá acabar
esse desacordo que nos proíbe

um do outro

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

poema no. 296 ou poema sem muita ação

há muita vontade
e pouca ação

é que a vida
não se mede
em atos

a vida não é uma peça

não se pega a vida
talvez nem se aja
nela

ela
só espera

eu
só expiro

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