na cama
ao teu lado
olho para o teto
e ele não é nada mais que o teto
descascado e úmido
de nosso quarto
como a cama mesmo
não é nada senão uma cama
que já foi de meu avô
de onde ele foi tirado e pra onde nunca mais voltou
os sapatos jogados
que são fora sapatos
a que se prestam os sapatos
meios sujos
meio furados
para além de sua existência como sapatos
como sujeira
como furos
os sapatos
que já carregaram significados complexos e diversos
neste momento não podem carregar nada
nem eu nem meus pés
nem qualquer coisa minha
que eu mesmo não carrego mais
e eu
que sou pra além de um corpo
ao teu lado
de um corpo que pesa na cama
já muito tarde
e teme
e treme
e (sim)
freme
mas não mais como quem olhasse e visse outra coisa
outro mundo
mas como que olha e vê o teto
marcadores que iam ser
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quinta-feira, 25 de abril de 2013
quarta-feira, 17 de abril de 2013
poema no. 353
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.
(Carlos Drummond de Andrade)
não há muito o que ser dito
tudo já foi dito
mil vezes
pra mil pessoas
em mil cenários
de mil maneiras
em mil línguas
ainda assim
poderia lançar mão de dois ou três
artifícios formais
e fazer um pequeno poema
(ou algo assim)
sobre o que foi a vida
(ou algo assim)
nos últimos meses
nos últimos dias
mas tenho a impressão
de que não há forma
formalidade
que dê conta
da dor
da cor torpe que tomou minha pele
meus pelos
poderia escrever três ou quatro versos vagos
mas
e a vaga que arrebentou
dilacerou
esfrangalhou
tudo
expor
abrir o meu peito
rasgar meu tórax e deixando passar
vazantes debulhadas e raivosas
(que de raiva e debulho estou cheio)
muito menos adianta
ou verte-se em arte
e que pode a arte
e por isso
é preciso que se lance mão da concretude
da palavra
saudade
da palavra
sozinho
da palavra
pronto-socorro
da palavra
suicídio
da palavra
medo
da palavra
mal-cheiro
lá fora as coisas seguem
sendo coisas e só
mais nada
a vida seguirá com
seus objetivos
apesar de qualquer delicadeza
que haja em meus olhos
a vida seguirá
com baixos salários
com sub-empregos
com crianças encarceradas
porque a vida não suporta amenidades
a vida
não suporta lirismos
como meus ombros
não suportam o mundo
quinta-feira, 11 de abril de 2013
poema no. 352 ou poema mudo
tem tanta coisa que eu sei
tanta coisa que eu sei
porque li
porque vi
porque fui sabendo de tanto dessaber
de tanto dissabor
mas aí acontece que eu me pelo de medo
por nada
por coisa besta
por exemplo se olho na janela
e lá fora tudo não mudou
como eu mudei
tenho medo do mundo se ele não muda
tenho medo de mim se me emudeço
e aí me sinto um tolo
eu que sei tanto
eu que li tanto
eu que tanto descobri de tanto duvidar
não sei como ter coragem
e mudar o mundo
como eu soube me mudar
tanta coisa que eu sei
porque li
porque vi
porque fui sabendo de tanto dessaber
de tanto dissabor
mas aí acontece que eu me pelo de medo
por nada
por coisa besta
por exemplo se olho na janela
e lá fora tudo não mudou
como eu mudei
tenho medo do mundo se ele não muda
tenho medo de mim se me emudeço
e aí me sinto um tolo
eu que sei tanto
eu que li tanto
eu que tanto descobri de tanto duvidar
não sei como ter coragem
e mudar o mundo
como eu soube me mudar
domingo, 24 de março de 2013
poema no. 351
não é porque estou apaixonado
(sempre
o tempo todo
por tanta gente
ao mesmo tempo)
que sou poeta
mas pela quantidade
de espaços vazios em meu peito
pela quantidade
de espaços vazios noite adentro
noite afora
pelo imenso vazio que é a noite
pelos tantos vazios
em que me enfio
noturnamente
e só sobra a vontade imensa de trepar
desesperadamente
e me embriagar
me preencher de embriaguez
desesperadamente
e me desesperar
embriagadamente
sou poeta
mas não porque conheça
os exercícios formais
porque tenha ido a aulas de ritmo
e arquitetura
e linguística
sou porque sou
porque verti-me em
vesti-me
de delírios insones
e os enfiei em mim
em cada espaço vazio
oco
inócuo
e porque
me preencho
porque estou
pleno de nada
penso que sou
o que não sou
e
vou
como quem fosse
mas não vai
e aí
dou a usar olheiras
dou a masturbar-me
noite adentro
a ferir-me noite adentro
a gargarejar ideias
e fonemas
e mumúrios sem porquê
sonhando
e pensando em coisas que não existem
em coisas que não passam de palavras
significante significado objeto representamen interpretante
em coisas que não podem me ferir
não podem
mas ferem
(sempre
o tempo todo
por tanta gente
ao mesmo tempo)
que sou poeta
mas pela quantidade
de espaços vazios em meu peito
pela quantidade
de espaços vazios noite adentro
noite afora
pelo imenso vazio que é a noite
pelos tantos vazios
em que me enfio
noturnamente
e só sobra a vontade imensa de trepar
desesperadamente
e me embriagar
me preencher de embriaguez
desesperadamente
e me desesperar
embriagadamente
sou poeta
mas não porque conheça
os exercícios formais
porque tenha ido a aulas de ritmo
e arquitetura
e linguística
sou porque sou
porque verti-me em
vesti-me
de delírios insones
e os enfiei em mim
em cada espaço vazio
oco
inócuo
e porque
me preencho
porque estou
pleno de nada
penso que sou
o que não sou
e
vou
como quem fosse
mas não vai
e aí
dou a usar olheiras
dou a masturbar-me
noite adentro
a ferir-me noite adentro
a gargarejar ideias
e fonemas
e mumúrios sem porquê
sonhando
e pensando em coisas que não existem
em coisas que não passam de palavras
significante significado objeto representamen interpretante
em coisas que não podem me ferir
não podem
mas ferem
segunda-feira, 18 de março de 2013
poema no. 350
um rivotril
ou dois
bastariam para fazer de mim
o homem mais feliz do mundo
aquele que não disse o que disse
aquele que não fez o que fez
aquele que disse o que não disse
aquele que fez o que não fez
claro que a depressão do sistema nervoso central não é coisa com que se brinca
claro que sempre se pode dispor de outros métodos
chás
ou dois
bastariam para fazer de mim
o homem mais feliz do mundo
aquele que não disse o que disse
aquele que não fez o que fez
aquele que disse o que não disse
aquele que fez o que não fez
claro que a depressão do sistema nervoso central não é coisa com que se brinca
claro que sempre se pode dispor de outros métodos
chás
maconha
mas o bem da ausência
chás alucinógenos
exercícios para respiração
masturbação
masturbação
mas o bem da ausência
o ser o que se não foi
só com um rivotril
ou dois
sexta-feira, 15 de março de 2013
poema no. 349 ou poema sensato
sempre
a sisudez
a sensatez
a aspereza
a frieza
a certeza
é certo que havia beleza
- uma áspera beleza -
e havia sorrisos
- uns ásperos sorrisos -
e havia ternura
- uma fria ternura -
mas havia a relutância
em crer que
de nós
a sensata
de nós
a certa do que havia de ser certo
a dona dos olhos abertos
(que há hora de tê-los abertos)
chorava
levava o sentimento ao limite
rasgava o coração
pois rasga
a sisudez
a sensatez
a aspereza
a frieza
a certeza
é certo que havia beleza
- uma áspera beleza -
e havia sorrisos
- uns ásperos sorrisos -
e havia ternura
- uma fria ternura -
mas havia a relutância
em crer que
de nós
a sensata
de nós
a certa do que havia de ser certo
a dona dos olhos abertos
(que há hora de tê-los abertos)
chorava
levava o sentimento ao limite
rasgava o coração
pois rasga
segunda-feira, 4 de março de 2013
poema no. 348 ou versinhos conservadores de amor
amor não te amo
como já te amei
como naquele tempo em que
tu eras rainha
e eu um rei
não fiques preocupada
não há o que temer
é que amor não é amor
se nele estiver contido
o poder
não fiques magoada
nem fiques com saudade
que amor só é amor
se nele estiver colada
a liberdade
não se sintas culpada
não é questão de culpa
é coisa de amor
que amor é coisa como nós
coisa que muda
então não fiques presa
ao nosso amor primeiro
que eu não mais te possuo
eu te amo como ama
um companheiro
como já te amei
como naquele tempo em que
tu eras rainha
e eu um rei
não fiques preocupada
não há o que temer
é que amor não é amor
se nele estiver contido
o poder
não fiques magoada
nem fiques com saudade
que amor só é amor
se nele estiver colada
a liberdade
não se sintas culpada
não é questão de culpa
é coisa de amor
que amor é coisa como nós
coisa que muda
então não fiques presa
ao nosso amor primeiro
que eu não mais te possuo
eu te amo como ama
um companheiro
terça-feira, 19 de fevereiro de 2013
poema no. 347
meu poema não é
um poema de amor
é um poema de medo
que é o medo
quem tem me movido
para cá
onde há muito estou
se não digo coisas belas
estrelas
luas
mares e estrelas
é que o medo tem sido antes
o medo tem sido primeiro
e há que ter medo
que o medo
é o alimento
deste poema
deste poeta
o medo é o alimento
e é ele que me come
e me mantém
obcordiforme
um poema de amor
é um poema de medo
que é o medo
quem tem me movido
para cá
onde há muito estou
se não digo coisas belas
estrelas
luas
mares e estrelas
é que o medo tem sido antes
o medo tem sido primeiro
e há que ter medo
que o medo
é o alimento
deste poema
deste poeta
o medo é o alimento
e é ele que me come
e me mantém
obcordiforme
sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013
poema no. 346 ou poema úmido
acontece que tenho andado
em quarto escuro
ouvindo música triste
(que música triste é mais bela)
e a escrever poemas tristes
(que eles são mais belos)
isso porque em algum momento
de minha vida
que em algum momento
passou pela tua
minha vida se desvencilhou da tua
e se te vejo
passando
andando
falando
sorrindo
chorando
fazendo coisas que as pessoas fazem
quando estão longe
dá uma saudade
que me esburaca
e se tu
me olhas
me acenas
me tocas
me beijas
me abraças
me dizes qualquer coisa delicada
dá uma vontade
de sair andando
chorando
andando sempre pra longe
que longe
muito longe
num quarto escuro
numa música triste
o pranto é secreto
em quarto escuro
ouvindo música triste
(que música triste é mais bela)
e a escrever poemas tristes
(que eles são mais belos)
isso porque em algum momento
de minha vida
que em algum momento
passou pela tua
minha vida se desvencilhou da tua
e se te vejo
passando
andando
falando
sorrindo
chorando
fazendo coisas que as pessoas fazem
quando estão longe
dá uma saudade
que me esburaca
e se tu
me olhas
me acenas
me tocas
me beijas
me abraças
me dizes qualquer coisa delicada
dá uma vontade
de sair andando
chorando
andando sempre pra longe
que longe
muito longe
num quarto escuro
numa música triste
o pranto é secreto
quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013
poema no. 345
como não depender de você
de você só ao meu lado
dormindo mesmo
sonhando talvez (comigo?)
fazendo qualquer coisa cotidiana
esperando o ônibus que nunca vem
a vida que há de mudar
estando mais que sendo
estando só
ao meu lado
se nasci pra ser assim
dependente
não de você
mas de tudo que se ponha ao meu lado
e sorria
se você sorri e me olha
sorrindo
se você sorri
e permanece sorrindo quando dorme
e talvez sonhe com outra
com outras coisas
e sorri
sorri
e me hipnotiza e me tira de mim e me põe em suspensão
mas acontece
que a vida não se vive em suspensão
a vida tem urgências concretas
que pede meus pés no chão
que me pede sem sorrisos
que a vida é coisa séria
acontece que a vida
precisa de mim inteira
porque de mim
e de minhas companheiras
querem mais meu sexo que meu sorriso
mais meu ânus que minha estância
ou minha espera cotidiana
por isso
eu te amo
mas não te quero
mais que quero mudar o mundo
mais que quero mudar o mundo em um mundo
onde minha boca valha mais dizendo sorrisos
que se portando como um orifício
de você só ao meu lado
dormindo mesmo
sonhando talvez (comigo?)
fazendo qualquer coisa cotidiana
esperando o ônibus que nunca vem
a vida que há de mudar
estando mais que sendo
estando só
ao meu lado
se nasci pra ser assim
dependente
não de você
mas de tudo que se ponha ao meu lado
e sorria
se você sorri e me olha
sorrindo
se você sorri
e permanece sorrindo quando dorme
e talvez sonhe com outra
com outras coisas
e sorri
sorri
e me hipnotiza e me tira de mim e me põe em suspensão
mas acontece
que a vida não se vive em suspensão
a vida tem urgências concretas
que pede meus pés no chão
que me pede sem sorrisos
que a vida é coisa séria
acontece que a vida
precisa de mim inteira
porque de mim
e de minhas companheiras
querem mais meu sexo que meu sorriso
mais meu ânus que minha estância
ou minha espera cotidiana
por isso
eu te amo
mas não te quero
mais que quero mudar o mundo
mais que quero mudar o mundo em um mundo
onde minha boca valha mais dizendo sorrisos
que se portando como um orifício
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