quarta-feira, 30 de abril de 2014

tua luta

A Júlia Clara

companheira
se falo de ti
e minha boca
fala dele
é que meus olhos
ainda só veem
o que está aparente

essa tua luta
contra tudo
o patriarcalismo
o olhar dicotômico sobre nossos corpos
sobre nossos olhares
essa tua luta
é também contra o meu olhar acostumado
o meu olhar viciado
o meu olhar
que de tanto querer mudar o mundo
esqueceu de mudar a si mesmo

de mudar a mim

por isso
sigamos
companheira
em luta

nossos corpos irão mudar
nossos olhares irão mudar
o mundo irá mudar

tu serás tu
e eu já não serei mais eu
serei outro

o outro que te reconhece em mim

quarta-feira, 23 de abril de 2014

desamor

Se o poeta falar num gato, numa flor,
num vento que anda por descampados e desvios (...)
Se não falar em nada
e disser simplesmente tralalá… Que importa?
Todos os poemas são de amor!
Mário Quintana

meu dia é de dor
na luta que luto
no luto que guardo
pelos companheiros
pelas companheiras
que se foram

e se luto
se sigo em luta
se ponho em riste
meus punhos cerrados
e avanço cantando
canções de luta
de companheiras e companheiros
que já se foram
é que eu mesmo
já me fui

e se fico por aí
suspenso
içado vagando sem rumo
sem prumo
amando
sabe-se lá o que
por quê
pra quê

lembro que amor
não se ama em sonho
se ama em luta

terça-feira, 15 de abril de 2014

chuva boa

a chuva que deixa
a praia deserta
mesmo neste lado da cidade
onde a especulação imobiliária
encheu de torres o horizonte

onde uma avenida
homenageia um ditador
ao longo de duas dezenas
de quilômetros
de praia

onde há imagens pagãs
e fontes de água turva
e um ou outro mendigo
tumultua a caminhada matinal
de cães de raça

esta chuva que cai
e rega as rosas de meu vizinho
e cujo som se assemelha
a um riacho
de água esperta

se lança distante daqui
em bairros que repousam
embaixo de águas calmas

(não somos de ninguém)

terça-feira, 8 de abril de 2014

segurança

a polícia
que te protege
que te deixa
são e salvo
se por acaso
tu passas na quebrada

é a que quebra minha cara
preta (só porque ela é preta)

é a que mata meninos
é a que viola meninas
onde o seu candy crush
não chega

é a que invade o meu bairro
e nos explica o que é o
terror

a polícia que te protege
te protege
de mim

sábado, 29 de março de 2014

sem título

de que vale para mim
o teu amor o de rita o de gilberto
se adiante meu peito aberto
se tornará um beco
com saída pro fim

domingo, 23 de março de 2014

sobre a liberdade

O mundo não terá fronteiras
Nem estados, nem militares para proteger estados
Nem estados para proteger militares prepotências
(Mauro Iasi)

quando
nossos corpos são profanados
e arrastados e ocultados
das famílias e de deus

e nossa história é profanada
e toda a sorte de blasfêmias
nos registra e nos nomeia
nos marca a pele

quando
nossas genitálias são violadas
por armas fálicas e olhares fálicos

não é necessário temer
a volta de ditadores
que do cerne
de nossa classe
jamais se foram

é preciso ir à luta
ombro a ombro
com justeza
com a certeza
de que nossa pátria
é a nossa classe

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

poema insular

numa tangente
da ilha de são vicente
onde o mundo esfria
e minha memória ascende
algo se acende
incandescente
como um coração
só que quente

não de amor
ainda que ame

não de dor
ainda que doa

não de raiva
ainda que ralhe

e ainda que acente
reascende
reacende

crente de que a vida
não se sente

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

poema de natal

enquanto em algum lugar
desta cidade à beira-mar
crianças são ofendidas
por jogarem seus limões
para o céu

eu choro
sob a água morna
de meu chuveiro elétrico
pensando em poemas
e em seus motivos

a luta de classes não me toca
nem a ninguém que esteja
sob água morna e ainda menos
se estiver quente e enrugando
as falanges

ao passo
em que todos os meus amores
dispersos pelo estado de são paulo
e minha solidão em meio a uma multidão
e comida e espumantes e presépios

me rasgam o peito
como balas violando corpos
num bairro operário

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

inadequação

o que me falta
é a inadequação

de fato

não apenas a imensidão inadequada
de sentir-me indesejado
inadequado
quando estou e não
ao teu lado

inadequar-me
a sério
dizer inadequações
sujas
feias
obscenas

ser completamente
impertinente
inconveniente

dizer tudo o que se faz necessário de ser dito
fazer tudo o que se faz necessário de ser feito
abrir tudo o que se faz necessário de ser aberto

apesar de
inadequado
insensato

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

ombro a ombro

a companheira isabel keppler
pensa que de si
não brota em mim
a poesia

acontece companheira

que a vida em nós é um poema
que foi escrito na luta

calejando a alma
de tanto desassombro
de tanto que seguimos
ombro a ombro

e trombamos nossos amores
que tombaram um a um
ao logo de tanta luta
e tanto calo
em tanta mão
cerrada
no alto

a esta altura de nossas vidas
em que nossos ombros não se tocam
tua chegada me toca por dentro
me arranca de mim
e me põe do avesso

um mauricio às avessas
um mauricio em prosa

uma novela

um novelo que não
se desemaranha

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