sábado, 7 de março de 2015

nota (para ser feliz)

um sorriso
só pra mim

mão no rosto
(não
      no torso)

e um sorriso
e outro

de perto
muito perto

um sorriso
halitoso
de tão perto

um sorriso
dentro

um sorriso
em
     mim

que sorri
por horas

que sorri
sem tempo

que sorri
e sorri

um sorriso
cremoso

que vai
dessorrindo

e larga em mim
(dentro de mim)

um beijo
alegre

sábado, 21 de fevereiro de 2015

poema sozinho

minha tristeza
não tem a beleza de um verso
é o verso da amargura comedida
delicada
melódica

minha tristeza
é a tristeza que desencanta
que cansa quem consola
de tanto consolar

é uma tristeza
de acabar com a libido alheia
é uma tristeza
de desapaixonar gente por mim
é uma tristeza
de desistir de beijar

é estar triste sem cafuné
é estar triste sem ombro amigo
é estar triste sem amigo

não tem lirismo a minha tristeza
ela é triste de verdade
no corpo no sangue na carne

é tanta tristeza
que incomoda
é tanta tristeza
que enche o saco
é tanta tristeza
que esvazia o recinto

e aí
de tão triste
fico sozinho

sábado, 13 de dezembro de 2014

poema grande

de repente
te acho linda

e então
se suspiro
tu és a mais linda
dentre todas as pessoas
mais lindas

e de tão linda
se agiganta
e quase não te alcanço
de minha pequenez

e tudo em ti
é grande e gigante

mas um dia
te sei em dor

(e em razão sei
é tua a dor que todos sentem
mas daqui de baixo
em minha pequenez devaneica
sei que a mais linda
entre as pessoas mais lindas
a que se agiganta dentro de mim
e me suspira em convulsões
não pode
não deve
sofrer)

e então
arranco de ti
dor a dor
e as enterro em mim
sob mentira e amor

ocorre
contudo
que tu és gigante

e uma dor
não
é uma dor

são galáxias chocando-se
dentro de seu universo
cosmicamente explodindo
e tornando-se outras mil milhões de galáxias
chocando-se

e eu
que tanto faltei às aulas de física
e resisti cegamente à construção de um bunker em meu quintal
sou atingido por mil milhões de rajadas
que me rasgam
em mil milhões de mauricios

que cabe a mim
senão recolher meus cacos
e seguir
meio liquefeito
meio esfarelado
meio gotejando 
meu amor pelo caminho

te sendo
ainda mais
que a mim


quinta-feira, 13 de novembro de 2014

poema financeiro

a amizade em mim
não retorna lucro

as taxas de administração do carinho tem sido altas
as alíquotas amorosas não têm compensado os custos
os dividendos dos sorrisos não vêm sendo os maiores do mercado

por isso
tantos investidores
cientes do mal negócio
tem debandado
para outros mercados
mais rentáveis

pois no fim
mesmo em meio a tanta luta
não se abre mão
da rentabilidade do afeto

(já circula entre os credores
que meu coração
solicita urgentemente
intervenção estatal)

terça-feira, 28 de outubro de 2014

poema de adeus do poeta à poesia

tua mão
tantas tantas
vezes
roçou a minha
e a minha
tiquetaqueava
convulsa
no teclado
tantas tantas tramas
mundanas
insanas

tanto tempo
vivi contigo
ao teu lado
dormindo em teu colo
colado em teu rosto
(o teu rosto de névoa)

ocorre
que a vida
não é só embriaguez
(tua embriaguez
com a qual
e só com ela
pude flertar com a
sensatez)
a vida
não se faz
de redondilhas

a vida se faz
crua
cruel
de fome
e fatos
a vida se faz na história
da luta de classes

se faz sendo preso
e castigado
por estar
e viver
em luta

por isso
terei de partir

tua boca jamais
roçará a minha
a procura de qualquer
significante

adiante
só tenho significados

e nada mais me interessa
que não seja verdade

quarta-feira, 30 de julho de 2014

poema atarefado

a vida segue
em algum lugar
ocorrendo meteórica
(e finalmente eu a sei
assim)
ocultando
contracheques
pensões
bolsas
como eu a oculto
(a atarefada vida)
sob quilos de tristezas
e mágoas carcomidas

fora de mim
a vida desata
caminhos
por onde não passo
aonde não chego

mas cá dentro
é por debaixo de
pranto e beiço
e mais ainda debaixo de
ódio de classe e birra
e sobretudo debaixo de
tudo e todos
os corpos ausentes

é que a vida tem
vivido em mim

sexta-feira, 6 de junho de 2014

sonhar, unir e lutar

às companheiras e companheiros do Coletivo Construção

primeiro que tudo
viram em volta
e tudo
tudo era
dor e morte
e sua classe
e seu povo
e elas e eles
doíam e morriam

então sonharam
um sonho simples
de que um outro mundo
era possível
um mundo sem posses
um mundo sem donos
um mundo
onde ninguém fosse de ninguém
onde o mundo fosse de todos

e era tão bom que sonhassem
e tão bonito o sonho
que uniram seus sonhos
se agigantaram
em esperança
viva
desperta de todo sono
liberta de todo medo

e de tão
gigantes que ficaram
todas todos
juntos juntas
cerraram os punhos
gritaram para o alto
puseram-se em luta
e
puderam ver
ainda que sob uma espessa fumaça
ainda que sob mais e mais camadas
de repressão de dor e desgraça

um mundo novo
em que todos são
livres

para Sonhar,
para Unir e
para Lutar!

terça-feira, 3 de junho de 2014

poema só

era assim
eu amava os cinco
e os cinco me amavam

mas

um tinha problemas de saúde
outra tinha problemas de vida
outro tinha problemas comigo
outra tinha problemas consigo
outro tinha problemas sem mim

e


fiquei sozinho

domingo, 18 de maio de 2014

amor de resistência

de tanto amar
e de tanto querer amar
mais e mais
mais sofro
de tão pouco amor
que sobra do amor

e tanto que sofro
e tanto que temo
imergir em mais dor
resisto ao amor

porém me ocorre
que estar livre do amor
é como render-se
como temer-se

(é preciso amar
como se houvesse amanhã
como se amanhã
um mundo novo fosse nascer
se eu amasse um amor que luta
se eu amasse um amor que avança)

e de tanto me ocorrer o amanhã
de tanto me surgir o adiante
resisto a resistir ao amor
e amo um amor que persiste

um amor de resistência

terça-feira, 13 de maio de 2014

sem posse

nossa relação
não é fechada
que um mundo
é tão pouco
para me bastar

nossa relação
não é aberta
fechado que sou
em mim e no que
me basto

nossa relação
não é livre
que neste mundo
quem é livre
pra ser e para amar

nossa relação
é uma relação
que luta
contra si
contra nós

que nós
ainda não nos bastamos
neste mundo
com tantos amos

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