terça-feira, 31 de julho de 2012

poema no. 286 ou distimia

é essa distimia
eu sei que é

mas saber não basta
nada basta
nada muda
nem olhares
nem beijos
nem estares

nem satikos nem daniéis nem suellens nem lilas nem thalitas nem nayaras nem fábios nem béis nem tainás nem marcelos nem marcios nem mauricios

nem mauricio

não me basto
não caibo

e nada muda
nem desaba

é um não fede nem cheira
é um chove e não molha

e nada muda

nem o grama diário de cloridrato de sertralina
nem todas as gotas de clonazepam

(uma hora muda
mas as horas mudam
e a hora não chega)

poema no. 285

é preciso lutar

é preciso lutar

contudo
este lutar impreciso
contra tudo o que encontro
contra o que não se sabe
contra um sentimento de injustiça

é preciso lutar contra todos os sentimentos
de injustiça

mas é mais preciso lutar contra a injustiça

por mais que não a saibamos
por mais que a não sintamos queimar

pois a luta
só ela
        a luta

desfaz a dor

domingo, 29 de julho de 2012

poema no. 284

não saber o que dizer
não saber por quê dizer
mas querer
e mais
precisar

e estar aqui parado
sem dizer
e estar a ponto de uma explosão
de onde partirão estilhaços de todos os verbos
perdidos e confusos e

alguns adjetivos
confusos talvez malcheirosos

de que ordem as palavras serão
não está no topo das importâncias

              no topo das importâncias
está a minha vontade
mais
a minha necessidade de dizer
sem saber o quê
sem saber porquê

sexta-feira, 27 de julho de 2012

poema no. 283

sonhei com a joana

que ela e eu íamos
de carro
não sei pra onde
não sei por quê

acho que sinto saudades de minha amiga
ou que penso intimamente que posso guiá-la
(num surto inconsciente de megalomania)

não sou muito de freud
então
acho que apenas sinto saudades de minha amiga


e quero muito abraça-la e beijá-la e estar com ela
não sei onde
e sobretudo
sem porquê

quinta-feira, 26 de julho de 2012

poema no. 282

estar distante não é querer estar

estar distante
é estar num lugar
e você noutro

é estar em lugares diferentes
não porque se quer
(necessariamente)

mas porque se está

existe uma tristeza
uma mágoa
uma nódoa
numa ferida
que talvez não deixe de existir
que talvez para sempre se faça lembrar

(e já sabíamos que existiria)

mas porque existe
e porque nos faz distantes

(nós
que nos amamos
- a palavra amor tão rara no poema -
que nos sabemos tão bem quanto não deveríamos
que nos ferimos e nos curamos
que nos destruímos e renascemos
que nos vemos onde não estamos)

irei cutuca-la com a unha
mesmo que suja
mesmo sob o risco de infecções
mesmo sob o risco de qualquer gangrena ou a perda de um membro

que é estar penso
se perto?


terça-feira, 24 de julho de 2012

poema no. 282

que é estar
em outro lugar

estar e não estar
estar para si
                   como estou para si (ausente)
estar noutro plano
estar plano
(estar dentro de limites
estar dentro de fronteiras
estar com bordas visíveis e fáceis de serem encontradas)


estar


desestar


desatar
nós


(dois)



poema no. 281

é um calor
concreto

que me leva a tirar a blusa
que me levaria a nudez
que me leva a odores

                       suores
                         dores
na cabeça e nos membros
é um calor
real

que me leva ao medo
que me levaria ao suicídio
que me leva e traz
o estranho sentimento
que só o tem os insanos

amendrontadamente insanos

poema no. 280

a baixada santista
quando vista da serra do mar à noite
é escura

a despeito de suas luzes e as de seus carros
a despeito das chamas da refinaria da petrobrás em cubatão
ou das lâmpadas acesas da usiminas que precisa ter operários produzindo toda a noite
mesmo dos altos postes que iluminam a praia para que não cesse o banho dos banhistas e se assemelham a discos voadores (se vistos sem óculos)
ou dos neons acesos nos clubes da ilha porchat
ou faróis que avisam os navios onde há terra
ou dos navios que navegam acesos pela baixada (sobretudo se farão cruzeiros)
a despeito das tevês todas ligadas
a despeito das lanternas dos guardas no CDP de praia grande
ou das lâmpadas sempre acesas no corredor da casa do adolescente
ou das fogueiras que ocorrem no inverno no centro de santos e ao longo da via expressa sul

a baixada santista
quando vista da serra do mar à noite
ou mesmo de dia
é escura

sexta-feira, 20 de julho de 2012

poema no. 279 ou desculpas

desculpe
a importância está cá dentro
as explosões

estão todas cá

nada morreu
senão eu
e o que eu fui

senão eu
e o que eu não fui

e nada morrerá
a não ser eu
e o que eu não for

ainda estão cá
todas as lágrimas
e todo o doce salobre
                          sobre o mel
estão aqui todos os tremores
e a mudez que se precipita em sua nudez
todos os versos estão cá
o desejo de tua umidade
o precipício que se abre quando estou no beco
que é seu corpo

nada nada nada
morreu

a não ser eu
e o que já não sou

quarta-feira, 18 de julho de 2012

poema no. 278 ou desculpa

sou um militante socialista revolucionário
um apenas
um só

não sou o melhor
nem talvez o haja
mas nem sou determinante

a revolução não partirá de mim
talvez não parta de ninguém
mas não sou determinante

milito
luto
apenas por não querer mais
que o mundo nos oprima
e que tão pouca gente esteja com tudo o que é nosso

uma militância egoísta
talvez

ou porque
de tudo
o que me resta é o coletivo
(você você você você você você você você você você
e você)

terça-feira, 17 de julho de 2012

poema no. 277 ou estranhamento

é triste
mas poemas

são produto de trabalho

(quero dizer que poemas não surgem de uma essência apaixonada e incauta mas de um intenso e preciso processo de transformação da natureza a partir de um devaneio prévio)

não sou iluminado
       suo fatigado
cada letra pesada
que carrego

cada vírgula que arranco
cada bocado de sujeitos que preciso ausentar de predicados

é desconstruir línguas e realidades
o meu trabalho  

segunda-feira, 16 de julho de 2012

poema no. 276

um dia de aniversário

(por mais bolos
e etanóis

por mais horas
e  notas
(e oitavas)

que possa ter)

é muito pouco para se descolar da vida

a vida
a dura e em frangalhos
a difícil e traiçoeira
que teima em queimar
as horas e os bolos

por mais amores e palavras doces
por mais doces encobertos
por mais debates açucarados
que possa ter

a vida queima
e teima em estar em mim
mais que eu nela
e em queimar mas a mim
que à vela

quinta-feira, 12 de julho de 2012

poema no. 275

minha querida amiga
o que dizer neste momento
em que a vida se embrutece
e irrompe em dor e
dúvida

se houvesse o que ser dito
talvez dissesse que a vida
não deve ser um processo
mas uma explosão de urgência
que tudo é urgente e
nada pode esperar
ou que

a vida é mais que sabê-la
e pensa-la
a vida é muda-la
(a vida é mudar a vida)

e é certo que você sabe
e é certo que você a vive
(pois você a muda)

assim
o que dizer que você não saiba
o que dizer que possa mudar a vida
(poemas não mudam a vida
é a nossa luta
dolorida e dolorida
que o faz)

sábado, 7 de julho de 2012

poema no. 274

andando
do alto do viaduto
me vejo no jardim

andando

no jardim
andando
entre flores árvores e bosta de cachorro
a vida é mais lenta e fria

não sou senão uma sombra
andando
no jardim
do que um dia se animará

a andar sobre o concreto

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