segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

poema no. 329 ou sentimental

eu queria era conseguir afastar
minha cabeça
(é que tento pensar
mas a razão não obedece)

tem hora que um tempão não dura o tempo de um raciocínio
tem hora que um tempinho dura todo um sentimento

(às vezes tenho medo de ser um tempo pra sempre)

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

poema no. 328

me entristeço
na tua tristeza

te ver triste
e distante

neste instante
distante
é mais triste

estar alienado
de tua tristeza
estar amarrado
em minha tristeza

e só olhar
e só te ver
e só ficar

parado e triste

sem te por um travesseiro
embaixo de tua cabeça
sem te dar um chá
de erva-cidreira
sem te arrumar meios
de embriaguez

ficar aqui e só
enquanto tu
triste
triste
triste

ai
ai

Santos, 'Porgy and Bess' e a Osesp

George Gershwin
   Neste fim de semana estive assistindo a "Porgy and Bess", ópera de George Gershwin, letras de Heyward e Ira Gershwin, baseada no romance "Porgy" de DuBose Heyard. As peças da ópera foram executadas na praia do Gonzaga, em Santos - SP. É lá que a Osesp tem fechado suas temporadas nos últimos anos.
   Porgy and Bess é uma obra prima. É, talvez, a grande obra de Gershwin, compositor que procurou aproximar a música popular da música erudita. Por isso foi esnobado quando foi estudar na Europa, por isso sua ópera não foi considerada uma ópera "legítima" até 1976, mas também por isso, ousou em colocar os trabalhadores negros do sul dos Estados Unidos pela primeira vez nos papéis principais de uma ópera. Além disso, é musicalmente uma obra avançada, com elementos jazzísticos,  folclóricos, mas também com fugas, politonalismos e atonalismos. Sua peça mais famosa seguramente é "Summertime", que ficou mais conhecida não na versão da ópera, mas na voz de Ella Fitzgerald. 
   "Ora, e daí?" Pergunta a leitora mais afoita. E daí que essa execução suscitou uma série de perguntas e inquietações a respeito da música erudita, da Osesp, da obra de Gershwin.
   As questões passam, de modo geral, pela pertinência da música erudita, pela opção de repertório feito pela Osesp, pelo local do concerto (uma praia num bairro "nobre" de Santos), pelo teor machista de algumas passagens da obra.
   E aí, fiquei pensando, pensando e pensei assim:
   Não há dúvidas, talvez ninguém questione, que a classe trabalhadora está alienada de determinadas expressões de cultura (inclusive de determinados aspectos da cultura popular), que a ela só é dada a chance, muitas vezes, de se apropriar da cultura de massa, produzida pela indústria cultural com o único objetivo de obter lucro. Mas aqui, estamos falando do não acesso de trabalhadoras e trabalhadores à música erudita.
   E do que falo quando digo "cultura erudita"? Digo de uma cultura ligada à pesquisa, à experimentação, ao estudo de técnicas, história, metodologias etc. Ora, é claro que este tipo de cultura deve estar ligado à classe que detém o "privilégio" de acessar a pesquisa, a história, o estudo - a burguesia. 

Fechamento da temporada da Osesp em 2011
   Então, quando falamos de acesso popular à música erudita, estamos falando de acesso à educação, à universidade etc. E não que a música erudita só possa ser admirada por um grupo de iniciados, mas os referenciais estéticos tendem à média daquilo que se tem acesso.
   Nesse sentido, a ideia em si de levar a música de concerto para fora da sala de concerto é boa. Mas, se cruzarmos isto com o fato de que ocupação das ruas também tem um recorte de classe, a ideia pode não ser tão boa assim. Quem frequenta o Gonzaga? Ou melhor, quem tem direito ao livre acesso ao Gonzaga? A burguesia e a pequeno-burguesia. Ora, à classe trabalhadora só é dado acesso ao Gonzaga pelas entradas de serviço. Então é de se imaginar que na praia de um dos bairros burgueses de Santos (na verdade, com a escalada de preços propiciada pela especulação imobiliária é impossível imaginar um bairro proletário na orla de Santos) quem estará assistindo a um concerto (recorte da cultura acessado majoritariamente pelos burgueses) serão burgueses.
   Mas, apesar disso, pensemos no repertório escolhido: Uma pequena suíte (seleção de músicas) de Chico Buarque e "Porgy and Bess". Um repertório relativamente popular para um concerto. Mas o bastante para atrair as massas, ou ainda pequenas parcelas dela, para as areias do Gonzaga naquele domingo? Não.
   É inegável o valor de Chico Buarque. É inegável o valor de Porgy and Bess. Mas é inegável que acesso a cultura não se faz dessa forma. Não faz sentido que num estado onde não se ensina música nas escolas, um programa imagine que irá popularizar a música de concerto levando-a uma vez por ano à praia mais burguesa de uma das cidade mais elitistas do estado.
Gershwin
   Quanto a "Porgy and Bess", sim, ela tem elementos de machismo. Mas como as tem "Orfeu da Conceição" de Tom e Vinícius. Como as tem muitos dos sambas de Noel Rosa. Quem nega o grande poeta que foi Vinícius de Moraes? Mas quem nega que os versos de Receita de Mulher" sejam machistas ("As muito feias que me perdoem / Mas beleza é fundamental.")? Curiosamente, "Porgy and Bess", historicamente é acusada de racismo, de trazer um retrato estereotipado da comunidade negra estadunidense nos anos 1930. Não estou propondo que não olhemos com crítica para a obra. Não estou usando a desculpa de que é uma obra de seu tempo. Não estou tentando relativizar o machismo. Qualquer opressão deve ser combatida com todas as forças! O que estou dizendo é que a obra tem muitos elementos avançados, inclusive no questionamento à naturalização do estupro, por exemplo, e no reconhecimento da cultura negra do sul dos Estados Unidos como legítima... mas, sim, escorrega aqui e ali.
   De tudo isso, o que fica? Eu, pessoalmente, fiquei muito feliz de estar no Gonzaga ouvindo "Porgy and Bess". Gosto muito desta obra, gosto muito de Gershwin. Mas não posso fechar os olhos e me enganar de que a música erudita acaba este domingo sendo mais popular. Ela segue sendo propriedade de uma elite econômico-social, segue sendo inacessível à classe trabalhadora, e temo que isso seja uma das estratégias de dominação de uma classe sobre a outra.
   Abaixo "Summertime", com Ella Fitzgerald e Cecily Nall.


terça-feira, 18 de dezembro de 2012

poema no. 327 ou poema extemporâneo

A Nayara Moreira Gatti
(que deu início à poesia)

saber que tem tempo
em que não há tempo
saber que há tempo
em que todo tempo é tempo

(tomar cuidado
com nossos tempos )

domingo, 16 de dezembro de 2012

poema no. 326

lila pensa que sou um poeta
que sinto e sofro mais que as pessoas todas
(inclusive você e lila)

que sou sensível
e em mim
as dores doem mais
e tudo é intenso e louco

mas o que lila não sabe
é que isso tem pouco a ver com poemas
(que deleuze diz
deve libertar o sentido
de suas representações
deve desconstruir
significantes)

tudo isso que se absurda em mim
tem pouco a ver com sentidos
e significantes

isso
essa coisa
que ocorre quando estou e não
ao seu lado
é uma bobeira
uma desminhoquice de cabeça
que qualquer hora passa

como passará o poema

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

poema no. 325

sofrer em silêncio
          em silêncio
manter em segredo

que sofro
que sonho

(em silêncio
em si)

poema no. 324

ter cuidado ao dizer palavras
ter o cuidado de dizer palavras
que (por ora) existam

(se não for dizer
não use palavras)


sexta-feira, 23 de novembro de 2012

poema no. 323

a minha filha

helena não sabia
de nenhum pudor
e nunca viu problema
em exibir os mamilos

no dia em que lhe disseram
que era feio
(exibi-los
não os mamilos em si)
ela chorou
e chorou com medo
de que fossem vistos

helena virou mulher

domingo, 18 de novembro de 2012

poema no. 322

em gaza
bombardeios israelenses matam palestinos

em são paulo
pessoas são mortas e casas são invadidas

em lisboa e madrid e em toda a europa
greves gerais são reprimidas com violência para a manutenção da ordem

em são paulo
estudantes ocupam uma reitoria

em natal
há uma manifestação contra o aumento da passagem (reprimida)

apesar disso
cá estou às duas e treze
escrevendo um mau poema
e conjeturando
em silêncio

que a vida
se supõe
em silêncio

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

poema no. 321

tornaste-te um nome
apenas

como se fosse pouco
um nome

tornaste-te um nome proibido
um nome de coisa proibida
um nome que não se diz
uma coisa que não se quer

como se fosse pouco
um nome proibido

tornaste-te uma ideia

(não uma ideia
apenas

uma ideia inaudita)

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

poema no. 320 ou ausente

não farei o poema de minha tristeza
minha tristeza não cabe no poema

tampouco farei o poema
onírico
de ventos que uivam
de folhas cortantes de cana verde
de cabras imaculadas

meu poema não é de sonhos nem de dor

não farei o poema de meu imenso amor
sobre o meu amor intenso e imenso
não porque ele não caiba no poema (e não cabe)
mas porque ele já não cabe em mim

meu poema será sobre nada
sobre o vazio
sobre a ausência
que se encerra
em mim

terça-feira, 6 de novembro de 2012

poema no. 319

não sei o que sinto
mas sinto que não sei (mais)

mudar na cabeça
a chave
de
       sentir
para
       saber

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Livro das Ignorãças

Manoel de Barros é um poeta.
Ele faz poemas sobre nada. E versos com ignorãças.
Abaixo um vídeo com trechos de poemas seus, do Livro das Ignorãças.


domingo, 4 de novembro de 2012

poema no. 318 ou poema egoísta

eu sei
que a vida ainda é difícil
com as opressões de classe e de gênero e de raça e de

sei que o capital avança sobre nossos direitos
e que pessoas morrem
na calada da noite

sei que a noite
é mais noite na periferia
e que balas cruzam os bairros
e coturnos abrem portas e espaço para
as balas que cruzam os bairros

mas agora
só consigo pensar
em mim e em minha dor

no escuro que se faz em mim
no abismo que se coloca diante de mim
na dó e na pena e na piedade que sinto de mim

e nada tem a ver com minha classe
ou com as opressões
ou com os ataques do capital

tem a ver comigo
e só

sábado, 3 de novembro de 2012

poema no. 317 ou poema da vila margarida

a vila margarida é um bairro proletário
próximo ao mar pequeno

muitos dos proletários e proletárias
(também há proletárias na vila margarida)
desconhecem
o significado da palavra 'proletário'

muitos
só tem pra si o vocabulário proletário
que não possui via de regra o vocábulo 'proletário'

mas os proletários e proletárias da vila margarida
sabem o que é ser proletário e proletária
porque a condição proletária acontece
na pele
no rosto
nos olhos
do proletariado

acontece no chão em que ele pisa
que se encharca de água e esgoto quando chove
(sim
em bairros proletários chove esgoto
e encharca de esgoto o pé proletário)

acontece na frágil inviolabilidade do lar proletário
acontece na frágil inviolabilidade da vida proletária

o proletariado sabe de sua condição proletária
quando seus filhos (mais até que suas filhas)
morrem
assim
só por morrer
só porque são proletários
e moram na vila margarida (um bairro proletário)

e porque morrem
e porque são proletários
e porque viviam num bairro proletário (a vila margarida)
onde chove esgoto e as paredes se parecem com cavaletes

ninguém liga
ninguém nota
ninguém se importa

(ninguém que não viva
na vila margarida)

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

poema no. 316

em casa
onde a vida é cercada
por lanças e por um cão
e onde
a não ser por umas janelas
a visão de quem está fora
é vedada
a verdade custa a entrar

a luz dos monitores não permite enxergar com precisão
o que ocorre além dos monitores

e eis que
quando se descobre
que pessoas estão sendo mortas
aos montes
a cada dia
às dezenas
elas já morreram
e já não se pode fazer nada

e quando se descobre que pessoas
tem o lar violado
aos montes
violentamente
por brutamontes
e seus rostos espancados
já foram os lares violados
os rostos espancados
e nada foi feito
nem será

a verdade
numa casa hermética como as deste bairro
quando chega
já é um caso
história
(mesmo que esteja acontecendo agora)

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

poema no. 315

a companheira Katia Moreira
pensa que de um mundo extraordinário
surgirão poemas

pois o triste
companheira
é que o mundo todo (de fato)
é extraordinário

com seus artifícios todos de opressão
com suas brechas todas para o assassínio

do mundo pululam as situações extraordinariamente sangrentas
(só por hoje teremos de ter o temor)

e poemas
que diante do genocídio que se anuncia
que diante da fome que permanece para um bilhão de pessoas
que diante do capital que persiste apesar de nossa luta
são desnecessários

surgirão
a despeito de sua desnecessidade

sim
companheira
neste mundo extraordinário
esta matéria inerte
este corpo que não trabalha
esta ferramenta que não funciona
teima em surgir para nada

para nos sentirmos ordinariamente desnecessários

Outramento...


     Isabel Keppler é marxista e proprietária de um diploma em psicologia.

     Além disso, me ocorre agora que ela é militante do movimento de saúde e da organização trotskista Liberdade, Socialismo e Revolução. Me ocorre que ela é minha companheira e que ela escreve coisas tão belas que não me sinto a altura de comentar.

     Em Isabel Keppler, me outro. E outrar-se é impossível diante do ordinário. Outre-se em "Outramento..." reunião dos escritos outros de Isabel Keppler.

poema no. 314


em meu corpo
há os dias
e as horas
e cada segundo
estático
sozinho
em que deixei de viver
e só parei
fiquei parado
junto do segundo
parado

sobre minha pele
e sob ela
cada dobra é a prova
ou a denúncia apenas

mas este é um julgamento parcial

cada dobra é a prova
de meu longo esperar
por algo que não virá a acontecer

se ainda pareço moço
numa primeira análise
é que posso disfarçar as dobras de meu corpo
ou ainda posso rir
(embora risos denunciem pequenas imperfeições)

mas numa análise mais pormenorizada
notarás que minha barriga cresce e só cresce
que em minha barba a cor branca cresce e só cresce
que minhas mãos teimam em
cada vez mais
se parecer com as mãos de meu pai

que minha pele dobra
que meus joelhos dobram
que minhas nádegas dobram
que meu pênis dobra
que meus olhos dobram

sim
meus olhos
os duros e gélidos
os firmes e incisivos
meus olhos
os que não amam e sabem tudo
os meus olhos também se dobram

mas que esperar de olhos e pênis
se não que se dobrem
se não que se deixem encobrir por pele e sonhos
                                               por camadas e mais camadas de epiderme
                                                            e sonhos mortos

meus olhos e meu pênis
cumpriram sua função
e cumprirão no limite o seu destino

dobrar até que eu mesmo não seja mais que uma dobra
um mauricio dobrado
pronto pra ser jogado fora

terça-feira, 30 de outubro de 2012

poema no. 313

o poema que pensei
se perdeu

vazou pelo ralo do banheiro


com a água quente
e a sujeira de meu corpo

neste momento
o poema que pensei e se perdeu
deve estar solto
correndo em alguma corrente do atlântico sul
junto ao cocô ao xixi e ao papel higiênico usado (que tem gente que joga no vaso)
de todas as pessoas de praia grande
(menos as que moram no mangue e nas palafitas
que essas não possuem saneamento básico
e tem de conviver com seus excrementos)

não me lembro do tema
do poema
nem daquilo que me tocava
naquela noite estranha
sob o chuveiro
desperdiçando água quente

decerto era um poema

pois para nós
os que possuimos saneamento e água quente
fazer poemas
é mera banalidade formal

domingo, 28 de outubro de 2012

Porque telenovela não é arte

Isso não é uma obra de arte.
Nos últimos dias surgiu uma discussão sobre as inovações técnicas, estéticas e mesmo dramatúrgicas da novela "Avenida Brasil", da TV Globo. Os comentários partiam de sua qualidade enquanto obra de arte, passavam pelo álibi de ser uma obra de arte (para poder reproduzir livremente comportamentos opressores) e chegavam ao fato de, como uma obra de arte, atingir o objetivo de fomentar debates na sociedade civil. Pois bem. Para este blogueiro a discussão começa errada, pois parte do pressuposto de que telenovela é arte. Então vamos pensar nas quetões acima.

Em primeiro lugar, telenovela não é arte. Telenovela é produto cultural (este assunto já foi tratado neste blog aqui). Isso faz toda a diferença. Arte, como dizem Deleuze e Guattari, se mantem em pé sozinha. Ela existe em si. Embora ela se consume na presença do espectador, ela independe tanto deste quanto do artista. Ela está posta. Ela busca, muitas vezes uma desintaxe, uma inverossimilhança, pois sua concretude é alcançada na condição pré-adâmica da humanidade. Na arte, a linguagem explode.

Ora, é claro que "Avenida Brasil" não é isso. Nem telenovela nenhuma. Todas - todas - de "Roque Santeiro" a "Chiquititas" recorrem a uma estratégia muito disseminada na indústria - a pesquisa de opinião. Por que aquela embalagem de molho de tomate nos agrada tanto? Por que você diferencia o molho com manjericão do molho com queijo a metros de distância? Porque a indústria realiza pesquisas para descobrir qual embalagem funcionará antes de lançá-la no mercado. Com a telenovela é a mesma coisa. Mesmo antes de ser escrita, pesquisas são feitas para definir o tema, os atores, a cidade que servirá de locação. E após as filmagens iniciadas, mais pesquisas para se definir querm casa com quem, quem se dá bem, quem morre... Isso não é exatamente algo que exista em si.

Em segundo lugar, a arte pela arte não é álibi para a disseminação de comportamentos de opressão sexista. Assim, mesmo que partíssemos do pressuposto de que "Avenida Brasil" era uma obra de arte, ainda assim cabe uma discussão séria sobre a responsabilidade do artista em relação à sociedade em que se insere (Ferreira Gullar já levantava essa questão nos anos 70. Veja aqui). Mas, como telenovela não é arte, nem este frágil álibi lhe cabe. Assim, o que fica, é a indústria (cultural), reproduzindo comportamentos que mantenham a sociedade do modo em que ela se encontra e do modo em que ela vem lhe fornecendo lucro.

Em terceiro lugar, telenovela não é arte, é produto. Assim, ela não fomenta debates. Maurício de Sousa já disse algumas vezes que suas revistas não se metem em polêmica, pelo menos não de forma pioneira. Com telenovelas é a mesma coisa. Pense bem: se você tem uma barraca de picolés, e tem capital para investir em apenas um sabor, você fará picolés de limão ou de abobrinha? Empresas não arriscam. Empresas seguem o senso comum. O senso comum dá lucro, a crítica da prejuízo. Por isso, quando algum tema polêmico aparece numa telenovela, é que ele já não é mais tão polêmico. Claro, erros acontecem. E quando isso ocorre, de uma grande polêmica acontecer, a empresa, a indústria dá um jeito de consertar, como em "Torre de Babel", quando lá pelas tantas os autores explodiram um casal de mulheres que vinha causando asco no público.

Assim, de toda essa discussão, o que deve ficar é: telenovela não é arte. Qualquer discussão que se faça a respeito do tema, para este blogueiro, deve partir de outro pressuposto.

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

poema no. 312 ou poema afetado

meu afeto
irresponsável
que me fere
que te fere

é ele que me põe feliz
se assim
fico só
(se me quedo
me afetando
e me ferindo)

e se irresponsavelmente
me afeto
(se não cuido do meu afeto
se debruço no meu afeto
só pra ser irresponsavelmente feliz)

sigo assim
afetado
afetadamente feliz
dando de ombros para o dia
em que me saberei
irresponsavelmente
irremediavelmente
irreversivelmente
ferido

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

poema no. 311

pouco falo
de meu falo
(de meu
pouco falo)

se falo é que
por meu falo
me calo

se me calo
quando falo
de meu falo
(de meu
pouco falo)
é que

em meu falo
não valho
mais que meu
pouco falo

domingo, 21 de outubro de 2012

poema no. 310

"O melhor lugar do mundo é aqui
E agora"
(Gilberto Gil)

o que tenho a dizer
não o direi
que isso não é hora
              nem lugar

seguirei sentindo e sabendo
mas mesmo o que sinto
       mesmo o que sei
                   o que sonho
                          e suo
                             (frio)

agora
aqui
diante deste pretenso pedaço de liberdade
ficarão aprisionados
que isto não é meio
             nem eu McLuhan

isto
tudo
o que não digo mais mas sinto e sei e sonho e suo frio
                                                    mas não agora e aqui       
ficarão reservados ao momento mais íntimo
de apreensão mais ordinária
de inquietação mais leviana e fugaz
de motivação mais displicente

àqui
àgora
estão reservadas as palavras mais despalavradas
                            os signos mais dessignificados
aqueles que não dirão nem sentirão
(mas que talvez
suarão(frio))
         

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

poema no. 309

ninguém mais
me beija a boca

minha boca anda triste
meio trêmula
meio sozinha

e ninguém a beija mais

porque não se beija
uma boca medrosa
e triste

só se beija
uma boca
com alegria

só se beija
uma boca sem medo

mas uma boca
sem medo
é uma boca fria

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

poema no. 308



"Dizem que é um colosso
Por dentro e por fora
É gente como a gente
A gente sente
Pois se aperta ela chora"
(Luiz Tatit)



não posso tudo
não posso nada
       posso mesmo muito pouco

(buscar água num
       poço

buscar bosta num
       fosso) mas se

não posso tudo
não posso nada
       posso mesmo muito pouco

por que
       ouço a mesma fala
                o mesmo falo
que me toca e me diz que
       posso
       posso
       posso (e então me
       torço)

                o que 
      posso
é saber o que
      posso
é saber que

não posso tudo
não posso nada
       posso mesmo muito pouco

(chorar a água de um
       poço

verter-me em bosta num
      fosso)

sábado, 13 de outubro de 2012

poema no. 307

se choro
é porque ainda sei chorar

ainda tenho em meu peito dores que existem apesar de mim
de você

que existem ao longo de mim e de você
e me impedem de ser o que quero ser
ou mesmo o que esperam que eu seja
ou mesmo o que eu espere que

se choro
é porque minha luta infantil
contra este mundo adulto e insano
não apresenta resultados concretos
e sim
talvez nunca os veja
talvez nunca aconteça
talvez só servirá para arrastar mais e mais
homens e mulheres e crianças (meninas e meninos) para uma luta infantil
contra este mundo adulto e insano

não é o seu desapreço por meu corpo
não é o seu desapreço por meus modos
não é o seu desapreço por meus medos
não é você

mas a vida
as condições de existência concretas
que me empurram
e resisto
e me empurram mais
e resisto
e resisto

se choro
é que a vida dói
com seus torniquetes
com seus dedos ferindo ainda mais as feridas
cutucando devagar as cascas ainda jovens
dolorindo e rindo

mas
a vida passa
não como passa um automóvel numa noite de sábado
não como passa uma dor

a vida passa
mas não passa como passa um pássaro na praia
alegórico
nem como passa um dia ou um tempo qualquer
em qualquer dia

passa
mas passa imóvel
quieta
inerte

como se não passasse
mas
passou

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

poema no. 306

a revolução proletária
internacional socialista

que nos fará livres de opressões
que nos fará livres de qualquer dominação de classes
que nos fará avançar sobre qualquer liberdade que em nenhum dia sequer sonhamos
que nos fará ver tanta beleza que nem sabemos
que nos fará ter tanta fartura
que nos fará gozar de tanto ócio
que nos fará viver e decidir viver

      nós a faremos

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

poema no. 305 ou fofinha

quando fofinha
minha cachorrinha vira-latas
me avisou que morreria
corri para o veterinário
e tentei impedi-la

e chorei na sua frente
e deitei ao seu lado
e me pus abaixo dela
só para persuadi-la

e voltei ao veterinário
mas mesmo ele já estava convencido e queria ajuda-la em sua decisão egoísta e insensata

dias depois
ela disse que sentia muito que eu sentisse tanto
mas ela já sentia mais
demais

então
sem muitas delongas
deu um aceno com a mão
e morreu
(como disse que faria)

terça-feira, 18 de setembro de 2012

poema no. 304

um poema mudo
inaudível

surdo-mudo

inefável

não porque de si
irrompa o desacordo verbal
não porque em si
a linguagem desmorone
não porque em si
as palavras amoleçam e escorram
não porque de si
escoe o sentimento pleno de rebeldia

um poema mudo
por ser mudo só
por não saber
por não poder
por não caber

poema no. 303

se um sonho fosse um sonho
e um poema um poema

um sonho seria um sonho
e um poema um poema

às vezes
sonhos podem ser poemas
poemas podem ser sonhos

se a eles é dado o direito de sê-los

então
(às vezes só)
poemas são sonhos
e
sonhos são poemas

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

poema no. 302

tenho dado para andar
só pra pensar

só pra falar
sozinho

(tem coisa que só se diz sozinho)

e essa alegria de estar só
e essa tristeza

que quando surge
é sempre mais bonita
contada do que vista

sábado, 1 de setembro de 2012

poema no. 301 ou laicato

o homem
que por nenhum motivo importante era preto
me xingava
e direcionava a mim gestos obscenos

é que não dei a ele o real que ele pediu
(eu disse que não tinha)
embora o tivesse

de fato
estou em dificuldades financeiras
não tenho podido ir ao cinema com frequência
nem comprar refrigerante todos os dias
mas eu podia dispor de um real
dois talvez
e dar ao homem
(que estava sujo
sem nenhum motivo aparente)

de fato
não será um real
(ou dois)
que resolverá a sociedade de classes
que resolverá a questão social

mas para o homem
que sem motivo qualquer usava as vestes rotas
que seguramente conhece pouco de marxismo
parecia importante que eu lhe desse
um ou dois de meus reais

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

poema no. 300


As peras, no prato,
apodrecem.
O relógio, sobre elas,
mede
a sua morte?
(Ferreira Gullar)

a vida segue
nós seguimos
juntos

e assim vida e nós
parados um com o outro

mas em dado momento
a vida avançou
(ou nós)

nos distanciamos

e quem podia prever
e quem podia notar
se parados
se distraídos com tanta coisa
com o mundo todo em sofrimento
com o capital alienando o mundo todo em sofrimento
com o cotidiano afogar-se em contas e tentar viver apesar delas
com o esperar do ônibus do trem do trólebus do metrô e de outro ônibus
(no ponto de táxi
pois é mais seguro)

a vida seguiu mais rápido (ou nós)
e eu te amo desesperadamente
e a vida segue mais rápido (ou nós)

não sei o que te dizer
não sei o que me dizer
não sei se há algo a ser dito
                                            ou feito ou esperado
não quero ser saudosista
não quero mais dor nem me ater à vida
       quero que tudo acabe

bem

poema no. 299


um homem com uma dor 
é muito mais elegante 
caminha assim de lado 
como se chegasse atrasado 
andasse mais adiante  
(Paulo Leminski)

eta vida

que dor
que dor é tanta
que dói e dói e dói e dói

e eu sei não vai não vai não vai não
passar

(vai
racionalmente vai
mas essa sensação de descompasso
abala qualquer razão)

e dói e dói e dói e dói e

atenuantes há
uma conversa
uma bebida
um sono longo

e dói e dói e dói e dói e
e não passa e não passa e não passa e não passa

o que resta é
ater-se à vida
ordinária
com seus cheques e protestos e carimbos
e reemplacamentos
e dentistas de convênios

e dói e dói e dói

eta vida

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

poema no. 298

parece que
nada funciona

há algo que sabemos
não funciona

não funciona a vida
como queríamos
como queremos
como prevíamos

há mais dor e fome do que pensávamos
(mais frio)
mais opressão sobre a nossa classe
mais dificuldade em nos organizar
mais certeza de que

não funciona a vida

nem a nossa
nem a minha
nem a minha e sua

as dores pequeno burguesas
ainda nos ferem
em algum lugar
algum recôndito

talvez funcione a vida
(a minha e sua
não a nossa)
nós e nosso modo de ser pequeno burguês em libertação é que ainda não funcionamos

em breve
há de ser feito um reparo

e a vida seguirá
funcionando
ou
não

desfuncionando

ou antes
a destruiremos
(a minha e sua
a nossa
não a minha
e a sua)
e faremos algo de bom

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

poema no. 297

o que ocorre

se você é tão bonita
e tem a inteligência que não tenho

que entre nós brota o desacordo

se você sabe de mim
tanto que me assusto
e nem posso fingir com dignidade
se dentro de você
tenho perigosas
paradas cardiorrespiratórias
 e dentro de mim
você produz
toda a espécie de delírios
se você me provoca
e me faz pensar
e estranhar as coisas

por que esse desacordo
que por vezes nos leva a crer
que tudo irá acabar
esse desacordo que nos proíbe

um do outro

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

poema no. 296 ou poema sem muita ação

há muita vontade
e pouca ação

é que a vida
não se mede
em atos

a vida não é uma peça

não se pega a vida
talvez nem se aja
nela

ela
só espera

eu
só expiro

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

poema no. 295

hoje
sonhei o sonho alheio

sonhei que estava sentado
diante de minha amiga

que sofria e sofria
e de suas mãos fluía óleo

eu a acalmava
mas eu mesmo estava em dúvida

(nós dois sabíamos que era sonho
só não tínhamos certeza de quem)

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

poema no. 294 ou moleque

Aline Cristina Lourenço
quando eu tinha
12 anos e você 11
você era a pessoa mais bonita do mundo

não que houvesse concretamente qualquer
coisa de extraordinário
contudo
e não sei como nem quando
você se tornou uma luz
e mundo tornou-se turvo para mim


(tudo era extremamente ordinário
mas com 12 anos
o amor é mais fácil e raso)


nada importava
apenas me apaixonar por você

não jogava bola
para me apaixonar por você
não comia cachorro quente
para me apaixonar por você
não tomava suco de soja
para me apaixonar por você
não fazia as lições
não entrava no laboratório
não tomava o meu ônibus

para me apaixonar por você

a vida era dura
e se rasgavam diante de mim
todas as verdades pequeno burguesas que me faziam existir
mas tudo era turvo

e um dia você usou um boné
e um dia você usou uma camisa do Santos F.C.
e um dia você lavou os cabelos
e jogou vôlei
e revelou a paixão de sua amiga por mim
e beijou o rapaz mais legal da turma
e meu coração enamoradamente pequeno burguês
se rasgava
se rasgava


que hoje
quando somos adultos
e não sei mais de você
quando tenho menos coração
e sou menos pequeno burguês
quando a vida ainda é dura
menos comigo
e mais com a minha classe
você é apenas uma lembrança

(lembrar de você
é lembrar de mim)

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

poema no. 293

dizer não é tarefa de poema
dizer é tarefa de conversa

dizer é tarefa ordinária
dada a objetivos ordinários

tarefa de poema é desser

mas não ser como
se a vida nos empurra

(a vida lenta e frágil
que oprime
comprime os miolos
a ponto de vomitarmos os bofes

a vida que teima em ser mais vida
no Gonzaga e mais morte
na ZN)

para a existência
concreta e sapiente

poema no. 292

estar preso
em suas palavras

mesmo nelas
estar preso

ou ainda
dormente
ou ainda
adormecido

ou ainda
acovardado
acocorado

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

poema no. 291

um poema de luta
é muito pouco para fomentar a luta

mesmo dois
ou três

mesmo todos os poemas de luta
são muito poucos para se fazer a luta

a luta se faz com vontades e
saberes

também se faz com dizeres
e quereres

(e tudo isso cabe no poema)

mas poemas não quebram janelas
não param estradas
não rompem barreiras
não cessam o efeito do gás
não tomam de assalto o poder

poemas tem força
mas perto da classe trabalhadora
são apenas um devaneio pequeno burguês

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

poema no. 290 ou poema imaturo

a dor de estar só
dói mais quando
se está só

quando se está só só
não se tem ninguém pra conversar
e a dor fica pra sempre por perto
(e quando se sente dor se é frágil)

é que quando se sente dor
se é frágil
e é mais difícil enfrentar
as coisas sozinho
(como a dor de estar só)

é muito doído estar só
quando se está só
com alguém por perto
é mais fácil estar só

(procurar uma multidão ou uma amiga)

poema no. 289

sentir o sol
e
sentir dó

poderia ser uma quarta
mas é toda a dor do mundo

poema no. 288

fazer poemas
como um adolescente em lágrimas
ou como um poeta velho e bêbado em lágrimas
ou como poeta em depressão em lágrimas
não mudará nada

fazer poemas
com o engajamento revolucionário
também não

mas muita lágrima verte a luta em dor

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Egberto Gismonti - Água e Vinho

     Egberto Gismonti é uma loucura.

     Uma doidera só, aquilo que ele propõe com seu violão de 10 cordas, com sua flauta de PVC, com seu piano de todos os sons. E ele diz tudo fácil. Tudo simples.
     Mas o mais bonito, sai de sua cabeça e entra na nossa. Talvez não passe por suas mãos ou por seu pescoço que requebra enquanto elas executam. Mas saia voando direto de sua cachola para a nossa. Como Água e Vinho.




poema no. 287

é esta vontade de mudar tudo
este querer tudo
e todos

esta vontade de beijar desesperadamente
todos os homens e mulheres que amo
desesperadamente

de correr
(correr correr de verdade sem metáfora)
seguramente em direção a algo
com o fôlego que não tenho

de ouvir água e vinho até o fim dos tempos
se é que haverão

de escrever harão
de escrever tudo o que hará de não existir
de falar outra língua
de falar a não língua que busco e não encontro para escrever

de calar-me e ficar calado
quietinho quietinho miúdo
pensando pensando

essa vontade de ter vontade
vontades
maiores que eu
maiores que tudo
que sobrarão além de mim
e que as darei a alguém
que harão de sacia-las sobre o chão em que estarei sob

terça-feira, 31 de julho de 2012

poema no. 286 ou distimia

é essa distimia
eu sei que é

mas saber não basta
nada basta
nada muda
nem olhares
nem beijos
nem estares

nem satikos nem daniéis nem suellens nem lilas nem thalitas nem nayaras nem fábios nem béis nem tainás nem marcelos nem marcios nem mauricios

nem mauricio

não me basto
não caibo

e nada muda
nem desaba

é um não fede nem cheira
é um chove e não molha

e nada muda

nem o grama diário de cloridrato de sertralina
nem todas as gotas de clonazepam

(uma hora muda
mas as horas mudam
e a hora não chega)

poema no. 285

é preciso lutar

é preciso lutar

contudo
este lutar impreciso
contra tudo o que encontro
contra o que não se sabe
contra um sentimento de injustiça

é preciso lutar contra todos os sentimentos
de injustiça

mas é mais preciso lutar contra a injustiça

por mais que não a saibamos
por mais que a não sintamos queimar

pois a luta
só ela
        a luta

desfaz a dor

domingo, 29 de julho de 2012

poema no. 284

não saber o que dizer
não saber por quê dizer
mas querer
e mais
precisar

e estar aqui parado
sem dizer
e estar a ponto de uma explosão
de onde partirão estilhaços de todos os verbos
perdidos e confusos e

alguns adjetivos
confusos talvez malcheirosos

de que ordem as palavras serão
não está no topo das importâncias

              no topo das importâncias
está a minha vontade
mais
a minha necessidade de dizer
sem saber o quê
sem saber porquê

sexta-feira, 27 de julho de 2012

poema no. 283

sonhei com a joana

que ela e eu íamos
de carro
não sei pra onde
não sei por quê

acho que sinto saudades de minha amiga
ou que penso intimamente que posso guiá-la
(num surto inconsciente de megalomania)

não sou muito de freud
então
acho que apenas sinto saudades de minha amiga


e quero muito abraça-la e beijá-la e estar com ela
não sei onde
e sobretudo
sem porquê

quinta-feira, 26 de julho de 2012

poema no. 282

estar distante não é querer estar

estar distante
é estar num lugar
e você noutro

é estar em lugares diferentes
não porque se quer
(necessariamente)

mas porque se está

existe uma tristeza
uma mágoa
uma nódoa
numa ferida
que talvez não deixe de existir
que talvez para sempre se faça lembrar

(e já sabíamos que existiria)

mas porque existe
e porque nos faz distantes

(nós
que nos amamos
- a palavra amor tão rara no poema -
que nos sabemos tão bem quanto não deveríamos
que nos ferimos e nos curamos
que nos destruímos e renascemos
que nos vemos onde não estamos)

irei cutuca-la com a unha
mesmo que suja
mesmo sob o risco de infecções
mesmo sob o risco de qualquer gangrena ou a perda de um membro

que é estar penso
se perto?


terça-feira, 24 de julho de 2012

poema no. 282

que é estar
em outro lugar

estar e não estar
estar para si
                   como estou para si (ausente)
estar noutro plano
estar plano
(estar dentro de limites
estar dentro de fronteiras
estar com bordas visíveis e fáceis de serem encontradas)


estar


desestar


desatar
nós


(dois)



poema no. 281

é um calor
concreto

que me leva a tirar a blusa
que me levaria a nudez
que me leva a odores

                       suores
                         dores
na cabeça e nos membros
é um calor
real

que me leva ao medo
que me levaria ao suicídio
que me leva e traz
o estranho sentimento
que só o tem os insanos

amendrontadamente insanos

poema no. 280

a baixada santista
quando vista da serra do mar à noite
é escura

a despeito de suas luzes e as de seus carros
a despeito das chamas da refinaria da petrobrás em cubatão
ou das lâmpadas acesas da usiminas que precisa ter operários produzindo toda a noite
mesmo dos altos postes que iluminam a praia para que não cesse o banho dos banhistas e se assemelham a discos voadores (se vistos sem óculos)
ou dos neons acesos nos clubes da ilha porchat
ou faróis que avisam os navios onde há terra
ou dos navios que navegam acesos pela baixada (sobretudo se farão cruzeiros)
a despeito das tevês todas ligadas
a despeito das lanternas dos guardas no CDP de praia grande
ou das lâmpadas sempre acesas no corredor da casa do adolescente
ou das fogueiras que ocorrem no inverno no centro de santos e ao longo da via expressa sul

a baixada santista
quando vista da serra do mar à noite
ou mesmo de dia
é escura

sexta-feira, 20 de julho de 2012

poema no. 279 ou desculpas

desculpe
a importância está cá dentro
as explosões

estão todas cá

nada morreu
senão eu
e o que eu fui

senão eu
e o que eu não fui

e nada morrerá
a não ser eu
e o que eu não for

ainda estão cá
todas as lágrimas
e todo o doce salobre
                          sobre o mel
estão aqui todos os tremores
e a mudez que se precipita em sua nudez
todos os versos estão cá
o desejo de tua umidade
o precipício que se abre quando estou no beco
que é seu corpo

nada nada nada
morreu

a não ser eu
e o que já não sou

quarta-feira, 18 de julho de 2012

poema no. 278 ou desculpa

sou um militante socialista revolucionário
um apenas
um só

não sou o melhor
nem talvez o haja
mas nem sou determinante

a revolução não partirá de mim
talvez não parta de ninguém
mas não sou determinante

milito
luto
apenas por não querer mais
que o mundo nos oprima
e que tão pouca gente esteja com tudo o que é nosso

uma militância egoísta
talvez

ou porque
de tudo
o que me resta é o coletivo
(você você você você você você você você você você
e você)

terça-feira, 17 de julho de 2012

poema no. 277 ou estranhamento

é triste
mas poemas

são produto de trabalho

(quero dizer que poemas não surgem de uma essência apaixonada e incauta mas de um intenso e preciso processo de transformação da natureza a partir de um devaneio prévio)

não sou iluminado
       suo fatigado
cada letra pesada
que carrego

cada vírgula que arranco
cada bocado de sujeitos que preciso ausentar de predicados

é desconstruir línguas e realidades
o meu trabalho  

segunda-feira, 16 de julho de 2012

poema no. 276

um dia de aniversário

(por mais bolos
e etanóis

por mais horas
e  notas
(e oitavas)

que possa ter)

é muito pouco para se descolar da vida

a vida
a dura e em frangalhos
a difícil e traiçoeira
que teima em queimar
as horas e os bolos

por mais amores e palavras doces
por mais doces encobertos
por mais debates açucarados
que possa ter

a vida queima
e teima em estar em mim
mais que eu nela
e em queimar mas a mim
que à vela

quinta-feira, 12 de julho de 2012

poema no. 275

minha querida amiga
o que dizer neste momento
em que a vida se embrutece
e irrompe em dor e
dúvida

se houvesse o que ser dito
talvez dissesse que a vida
não deve ser um processo
mas uma explosão de urgência
que tudo é urgente e
nada pode esperar
ou que

a vida é mais que sabê-la
e pensa-la
a vida é muda-la
(a vida é mudar a vida)

e é certo que você sabe
e é certo que você a vive
(pois você a muda)

assim
o que dizer que você não saiba
o que dizer que possa mudar a vida
(poemas não mudam a vida
é a nossa luta
dolorida e dolorida
que o faz)

sábado, 7 de julho de 2012

poema no. 274

andando
do alto do viaduto
me vejo no jardim

andando

no jardim
andando
entre flores árvores e bosta de cachorro
a vida é mais lenta e fria

não sou senão uma sombra
andando
no jardim
do que um dia se animará

a andar sobre o concreto

sábado, 30 de junho de 2012

poema no. 272

os tempos são difíceis

menos porque as massas
ainda possuam ilusões burguesas

(menos
inclusive
porque a despeito do que me diga lenin
há o sentimento de que elas talvez sempre as tenham)

os tempos são difíceis
e não são porque às vezes me sinto só
com minhas companheiras
gritando para o vazio

são difíceis como poucas vezes o foram
e tampouco penso que seja
pela imensa apatia
que se abate sobre nós

os tempos são difíceis
e duros
e ásperos

porque sobre nós é despejado
todo o ódio
que brota
da estupidez estanque
do conservadorismo verdadeiro


segunda-feira, 25 de junho de 2012

poema no.271

acontece
companheiras
que sou machista

lutar contra o que sou
contra o que sempre fui
(e talvez
a despeito de nossa luta e de meu desejo
contra o que eu sempre seja)
é a luta a que não posso me negar lutar

não posso porque alguns fronts só eu os alcanço

e então
quando diante de todos e todas ou tod@s
surge aquela piada aquele escárnio aquele olhar de quem pode sobre quem não pode
é que estou perdendo

(mesmo que diante do garçom
me recuse a aceitar a conta)

(não é de retórica a nossa luta
é de verdade)

sábado, 23 de junho de 2012

poema no. 270

não somos os mais numerosos
nem os mais organizados
nem os mais ofensivos
nem os mais radicais

mas os companheiros
e as companheiras
do m.e. da unifesp bs

certamente são daqueles
que mais se entregam

mesmo sem saber o que virá
e querendo aquilo
que a canção diz

a terra mãe livre comum

sábado, 16 de junho de 2012

poema no. 269 ou poema inaudível

22
estudantes
companheiros em luta
por uma universidade 

pública
gratuita
de qualidade
e socialmente referenciada

foram agredidos e presos

qualquer coisa que se possa dizer
parecerá apenas mais um jargão

(não cabe no poema
o som dos tiros
e dos gritos da companheira)

quinta-feira, 14 de junho de 2012

poema no. 268

minha amiga nayara moreira gatti
fala

e a liberdade acontece
meu corpo se aquece na

fala
de minha amiga nayara moreira gatti

é que quando ela fala
eu digo o que eu ia dizer
e não preciso mais

(parece que minha amiga
a companheira nayara moreira gatti
sabe o que penso)

claro que pode ser apenas coincidência
ou a consequência de uma formação política com muitos termos em comum
mas na minha cabeça
só fica o calor que me produz a fala da companheira -
a minha amiga nayara moreira gatti

sexta-feira, 8 de junho de 2012

poema no. 267


"Yo no canto por cantar
ni por tener buena voz
canto porque la guitarra
tiene sentido y razon (...)"

(Victor Jara)



sentir a razão
a dor da razão
ouvir a razão
e sentir mais pensar

não há paradoxo
não há dialética
não há síntese

mas é que a razão
torna-se sentir
e sentir torna-se
lutar

e quando
se sente a luta
e quando
a luta vira sentido

sonhar
pensar
lutar
torna-se intimidade

e
identidade

sexta-feira, 25 de maio de 2012

poema no. 266

acontece
que às vezes é muito não

muitos dedos
em todos os
orifícios

sou todo pleno de orifícios

e não que eu te queira
sempre míope

(ou estrábica
hipermétrope
fotofóbica)

sou de fato pleno de orifícios

mas

acontece
que às vezes é muito não
                      muita dor

talvez teus orifícios junto aos meus
possam surtir algum efeito
terapêutico


quarta-feira, 16 de maio de 2012

poema no. 265

não sei reter amigos
nem amigas

nem sei te-las

(não sei tecer as amizades)

a minha dureza nas feições não deve ajudar
a minha dureza na voz
e nas palavras tampouco

mas como não ser duro
diante da vida que é dura
e dura para sempre

diante da dureza sólida
daquilo que é estar sozinho
temendo estar

como não ser duro diante de tanta dureza que teima em não se verter em luta

mas assim
duro porque duro
sigo duro
e só

domingo, 13 de maio de 2012

poema no. 264

se um papel
com um bilhete
deixa um recado
e some

(ou vira lixo)

ele era papel

se um papel
com um bilhete
deixa um recado
e fica

(ou vira lembrança)

ele era papel

mas vira poema

poema no. 263

sonhos sonhados
constroem-se à noite
durante os sonos

mas sonhos
realizados
constroem-se
na insônia
durante a luta

segunda-feira, 30 de abril de 2012

sexta-feira, 27 de abril de 2012

quinta-feira, 26 de abril de 2012

poema no. 260

andar o caminho do futuro
com as pernas do passado
sendo alienado do presente


de repente sentir-se
um pária

quarta-feira, 18 de abril de 2012

poema no. 259

um poema inédito
tem todo o ineditismo

de que se precisa pra não fazer ciúme

mas sempre há o risco
de que não seja belo
de que não seja lindo
de que não seja bonito

e aí
o que fazer com um poema inédito
mas de pouca pertinência
estética?

terça-feira, 17 de abril de 2012

poema no. 258

não tenho certeza se

gentileza
   gera
gentileza

mas algo ocorre
na aspereza

e não digo da aspereza
de mãos
ou calos
ou mesmo de palavras
                                    essa coisa quase abstrata

digo da aspereza concreta
da concretude áspera
do ar que me circunda
e que me vara
por todos os orifícios
sem qualquer
lubrificação

domingo, 15 de abril de 2012

poema no. 257

amor
mais pessoas
ou menos pessoas
não nos farão mais felizes

ou menos

será da imensa incompletude
que sempre coube a nós
que virá o êxtase
maior

poema no. 256 ou Feixe de Palha

um feixe
desordenado
emaranhado
menos feixe e mais novelo

mas um novelo
que sabe
que vai

um novelo que se quer feixe
e que se deixa
ser

poema no. 255

não sou um grande revolucionário

li pouco marx
li pouco engels
li pouco trotsky
li pouco lênin

de bakunin
e todos os anarquistas
quase nada

mas
e essa vontade
de que o mundo se exploda
e recomece com justeza?

poema no. 254 ou Nu feminino no azul

teu corpo

o teu
(tu que não sei)
azul e escuro corpo
semi-iluminado
por semilâmpadas em movimento

teu corpo inconcluso
de cuja nádega
brota uma ilusão

acaba por me desfazer
e me reconstruir
em poesia

sábado, 14 de abril de 2012

poema no. 253

amizades coloridas
em imagens preto-e-branco

amizades doloridas
levadas em fogo brando

(até na amizade
a dialética)

terça-feira, 10 de abril de 2012

poema no. 252

 A Su, Saty e Lila

tornar o amor
livre

ser livre e comungar a liberdade com
o outro

tornar vazio
todo verbo que amarra
todo olhar que prende
todo gesto que segura

tornar liberto
o que era
encoberto

segunda-feira, 9 de abril de 2012

poema no. 251

realidade
é a dureza
de ter frio e fome
e perder filhas
e filhos
por frio e fome

nenhuma canção
nenhum poema
nenhuma fotografia de belos corpos felizes e expostos
mudará a dureza

de ter frio e fome
e perder filhas
e filhos
por frio e fome

mas algo em mim
algo que sofre e que refuto
me quer em devaneios
e em colapsos
algo em mim me faz acreditar
que poemas verterão milho dos versos
que canções cobrirão corpos em tremor

há algo que me quer louco
e louco
sofro
e refuto

domingo, 8 de abril de 2012

poema no. 250

estar pleno de ti
ser pleno
e sentir
sentidos vãos e insanos

não preciso o que sinto
não preciso do que me é privado

é público o que sinto
e tu me tornas
além

sexta-feira, 30 de março de 2012

terça-feira, 27 de março de 2012

poema no. 248

depois de todas as coisas terríveis
que enfrentamos

depois de enfrentarmos juntos o mundo

é o enfrentamento
o que nos afastará

(eis que saímos derrotados)

domingo, 25 de março de 2012

poema no. 247

querer morrer
e não poder

querer morder
e não conter

querer viver
e não saber

querer crescer
e não caber


querer morrer
e não conter

sexta-feira, 16 de março de 2012

poema no. 246

minha amiga
Thalita V. Miranda
foi a Portugal
depois a Londres
(onde teve dissabores)

depois eu sonhei com a Thalita
e ela tentava me assassinar

depois eu sonhei de novo
e nos abraçávamos demoradamente

acho que culpo minha amiga por me fazer saudade
mas quero mesmo é ficar de bem
(nem precisei de freud)

quarta-feira, 7 de março de 2012

poema no. 244

Fabricia não tem olhos azuis
ela é preta
(mas finge que não é)
e mora num abrigo para crianças pobres
e pretas

certa feita
porém
Fabrícia ficou toda azul
resplandecendo azul
sorrindo azul
congelada e azul

em frente a uma tevê na sala escura

Um poema por dia (não consecutivo)

Apesar do aparente fracasso (sim, perdi para a cotidianidade da vida), resolvi acabar a série "um poema por dia" com o mínimo de dignidade.
Assim, daqui pra adiante, seguiremos com um poema por dia, até completar o no. 366.
Talvez não consecutivos. Talvez leve mais de 366 dias. Mas chego lá.

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Outro Brasil

Faz muito tempo que este blogueiro não escreve nada (não aqui).
Mas,depois de tanto tempo, digno-me a vir aqui e recomendar um blog bem bacana: Outro Brasil (para acessar clique aqui).
Em "Outro Brasil", Alceu Castilho faz jornalismo do melhor modo possível: livre.
Vale a pena.

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